junho 25, 2009

Quem de dentro de si não sai
Vai morrer sem amar ninguém

Vinícius de Moraes

A Outra

Ontem assisti a um filme da fase dramática de Woody Allen: "A Outra" (Another Woman). Lindíssimo. Muito psicanálitico, acompanha a história de uma mulher (Marion) que, em seus cinqüenta e poucos anos, percebe que deixou-se fechar para os sentimentos, tornando-se fria e distante das pessoas. Ela apenas percebe isso ao começar a ouvir, por acidente, as consultas de uma jovem grávida com o psicanalista do escritório ao lado do seu.

O filme ainda é da fase Mia Farrow, que interpreta a jovem angustiada (pois é, o filme é antigo). A protagonista é Gena Rowlands.

É interessante como, por meio de sonhos e de confissões de pessoas próximas, Marion percebe que fez escolhas por demais racionais em sua vida, deixando os sentimentos de lado. Em uma cena, ela lembra que aos vinte e poucos anos engravidou do então marido, mas decidiu abortar. Abortou, por medo da ligação e do sentimento que teria pelo bebê. Suas relações com todos a sua volta são superficiais: com o marido (nunca fica sozinha com ele), com o irmão, com o pai. Sempre evita assuntos "inadequados" e age sempre de acordo com o supostamente "correto", fugindo de situações de conflito ou constrangedoras. Ao mesmo tempo, ela é intelectualmente brilhante e admirada.

Enfim, um excelente filme para ver em casa, pensativo.

Como em todo Woody Allen, a música é maravilhosa. Um exemplo aí embaixo.

maio 31, 2009

Endorfina

Ana correu em direção a um autismo há algum tempo esquecido. Em cima da esteira parecia que o tempo se repetia. Movimentos e sons monótonos a levavam a seu interior. Ouvia o ritmo pesado de seu tênis sobre o chão em movimento.

A televisão a sua frente nada dizia. Ali, parecia que assistia a uma outra televisão enquanto corria absorta em pensamentos abstratos. O mundo lhe parecia mais exterior do que nunca. Ela era a única espectadora de um cinema gigantesco, com milhões de dimensões, que observava encantada.

Nas bicicletas paradas, as pessoas pareciam flutuar em câmera lenta. Os homens fortes urrando gritos guturais levantavam pesos pesadíssimos como num doce ballet. Na sala de ginástica as moças levitavam sobre camas elásticas, em lentos movimentos delicados. Nos aparelhos desajeitados, acrobatas realizavam movimentos doidos.

Naquele momento, alguém postou-se à frente da esteira. Ana não viu. Alguns minutos passaram até que percebesse a presença de uma moça movendo os lábios vagarosamente. Levou um tempo até que conseguisse escutar o que dizia:

- Ana, você está me ouvindo?

Era Felipa. Colega do trabalho. Fazia ginástica na mesma academia. E riu quando percebeu a ausência presente de Ana.

- Você estava viajando.
- Pois é. Estava mesmo. Tudo bem?
- Tudo. Estou gostando de ver sua presença na academia.

Ana sempre foi avessa a academias de ginástica. Mas também odiava ficar parada. De repente viu-se quase sem alternativas. E agora corria quase todos os dias em uma esteira eletrônica, com uma TV à frente. Achava aquele ambiente um tanto surrealista, com seus aparelhos e movimentos repetidos e organizados. Havia algo de fordiano, de Tempos Modernos, numa academia. E entrou naquela engrenagem gigante do filme de Chaplin até se acostumar. E mesmo gostar. Numa viagem louca no mesmo lugar.

maio 25, 2009

O Documentário de João

O documentário Nelson Freire é uma experiência. Não quer explicar. Não quer necessariamente informar.

Quer que o espectador sinta - exatamente como a música faz.

Tal como o músico que mal consegue se expressar com palavras - porque não precisa - o filme transmite emoção por imagem, som e silêncio. Fotografia, montagem e música. É sensorial e não racional.

Gostei muito do filme na primeira vez que vi. Mas só agora, ouvindo o João Moreira Salles falar, entendi o porquê.

maio 24, 2009

Artaud

Li em um excelente artigo de Arnaldo Jabor:

"A arte não é a imitação da vida. A vida é que é a imitação de alguma coisa transcendental com que a arte nos põe em contato", Antonin Artaud.

O artigo é genial. Recomendo a leitura.

maio 16, 2009

Simonal

Acabei de assistir ao documentário sobre o Wilson Simonal, "Ninguém sabe o duro que dei". Recomendo fortemente. Vale pela história, pela excelente pesquisa e pela música. A edição é bem feita, criando uma narrativa envolvente. A vida de sucesso e decadência de Wilson Simonal é contada através de depoimentos, linearmente, e a vida de Wilson Simonal é fascinante.

Para quem não sabe, ele não foi apenas o pai do Simoninha e do Max de Castro. Foi um dos cantores de maior sucesso no Brasil da década de 60, início de 70. As imagens mostradas no documentário são impressionantes, especialmente aquela em que o cantor rege um coro de 30 mil (ou 40 ou 50) pessoas no Maracanã.

Simonal impressiona não apenas por isso, mas também por suas qualidades como cantor. Com suingue, com emoção, com técnica, com carisma. É quase inacreditável que um único grande erro em sua vida o tenha levado ao ostracismo.

Vale a pena assistir nem que seja apenas para ouvir a música ou apenas para conhecer a história deste homem ou apenas para ver como poder ser cruel julgar e condenar alguém a penas perpétuas.

Apesar de o filme ter alguns problemas técnicos, vale muito a pena. Não sei o que houve na captação das entrevistas, mas algumas imagens dos depoimentos ficaram estranhas. Nada que comprometa o filme.

Um pouco de Simonal, para dar o gostinho:

maio 06, 2009

O que é traição?

Traição. O que é traição? É o sexo? Não sei. Me parece que pior do que a traição do sexo é a traição da amizade, a traição da confiança, a traição do respeito.

Traição é a sensação terrível de perder o chão. É a decepção seguida de raiva, seguida de resignação. Em alguns casos, seguida de vingança.

Traição é o fim da ingenuidade. É o fim de algumas crenças. É dormir com o olho aberto. É esquecer os bons momentos e transformá-los em análises.

Traição. O que é traição? Não sei. Estou descobrindo.

abril 23, 2009

Memória

A memória é mesmo uma coisa muito louca.

Outra dia meu pai estava todo feliz, porque leu em alguma revista do cabelereiro que não lembrar de tudo é importante para a inteligência ou algo assim. Isso porque a lembrança ocuparia uma parte importante do seu cérebro.

Obviamente meu pai é um cara esquecido.

Bem, isso foi só um nariz de cera para contar que não lembro do momento em que escrevi o texto do post anterior, aí embaixo.

Um dia, entrei no editor do blog (publisher, sei-lá como chama) e lá estava o texto entre os rascunhos. Segundo o Blogger, eu o havia escrito uma semana antes. E simplesmente não lembrava. Não lembro, na verdade. Quando escrevi? Por que escrevi? Como assim, "quem tucanou a Madonna?"... Que viagem!

O fato é que escrevi, porque só eu tenho a senha do blogger... Então, publiquei. Publiquei e assinei um texto que não lembro de ter escrito, simplesmente porque tudo indica que fui eu que escrevi.

Mas, a memória é uma coisa muito louca, não é não?

abril 22, 2009

Mistérios

Quem matou Laura Palmer?
Quem matou Odete Roitman?
E Baby Jane?

Quem sequestrou o Michael Jackson?
Quem tucanou a Madonna?
Quem inchou o Maradona?

Quem comeu a chapeuzinho?
Ou seria a vovozinha?
Que comeu o Lobo Mau?

Quem viu o Equador?
Passeou pela Nova Guiné?
Ou jantou na Mauritânea?

Quem? Quem?
Eu pergunto:
Quem?

abril 19, 2009

Nietzsche

Há uma exuberância da bondade que pode parecer maldade.

abril 01, 2009

To be or not to be?

Por que o João Moreira Salles nunca fez um documentário sobre a elite brasileira?

março 22, 2009

Bons curtas disponíveis na net

O Porta-Curtas é um site bacana que exibe alguns filmes às vezes não encontrados nem no YouTube.

Incluí aqui dois links que valem a pena.

O primeiro é um documentário muito legal sobre a morte da personagem Rê Bordosa. O mais divertido é que o doc é uma animação.

Dossiê Rê Bordosa

O segundo curta já é um clássico. Filmaço. Sempre vale rever.

Ilha das Flores

março 04, 2009

Arnaldo Antunes

A gente não quer só comida.
A gente quer comida, diversão e arte.

março 02, 2009

Cinema é a maior diversão

Até o momento, vi apenas dois dos filmes que concorreram à categoria principal do Oscar: Quem quer ser um milionário e O curioso caso de Benjamin Button. Gostei dos dois, mas em graus imensamente diferentes. Minha preferência é certamente pelo segundo filme.

O primeiro é divertido. A história se passa numa Índia diferente daquela que costumamos ver no cinema: mais ou menos o que Cidade de Deus fez com o Rio de Janeiro.

Parênteses: vi algumas pessoas comparar Cidade de Deus e Quem quer ser um milionário. Não vejo semelhanças. O brasileiro é infinitamente mais criativo e original, características que faltam ao filme indo-americano. Do roteiro à fotografia, passando pela edição e direção, Cidade de Deus está em outro patamar cinematográfico. Fecha parênteses.

A película de Danny Boyle é divertida, mas não tem nenhuma profundidade. A história é até um pouco boba. O mais interessante do filme é a paisagem e os personagens, o lado antropológico da obra, mostrando um pouco da vida dos indianos menos favorecidos. Nada que mereça um batalhão de prêmios.

É até com alguma tristeza que constato isso, já que Danny Boyle dirigiu um dos melhores e mais originais filmes que já assisti: Trainspotting.

Do outro lado da balança, gostei muito de Benjamin Button. Já li diversas críticas negativas ao filme, mas discordo totalmente delas. Acho o filme muito sensível, adorei a atuação da Cate Blanchett, a fotografia é extremamente cuidadosa, os personagens interessantes... Até os efeitos especiais são usados de uma forma que gostei bastante, incorporando-se inteiramente à história e aos atores. Benjamin é muito emotivo e gosto de filmes que conseguem tocar a emoção desta forma. Uma linda fábula.

Ainda faltam alguns filmes, que pretendo assistir nas próximas semanas. Ao contrário de alguns amigos, adoro a festa do Oscar. Acho fascinante. Me encanta ver os atores como personagens reais, homenageando-se, aplaudindo-se, emocionando-se. Celebrando a arte do cinema, enfim (sim, há espaço para a arte na maior "indústria" cinematográfica do mundo).

fevereiro 15, 2009

Capítulo 5

Não reconheceu em si a erudição de seu pai, a habilidade de sua mãe ou a grandeza moral de seus avós naquela terça-feira. Qual herança os mais diversos genes e as mais diversas mentalidades haviam deixado nela?

Às vezes questionava-se qual traço de sua personalidade e de seu cabelo havia herdado de seu trisavô. Aquilo simplesmente desaparecera?

De onde vinham aqueles constantes questionamentos? Não poderiam vir apenas daqueles 25 anos de vida.

Não acreditava em Deus.

Não acreditava no sobrenatural.

Mas acreditava na força das heranças, que era rica e repressora de uma forma imensamente intrincada.

O telefone tocou. Ana percebeu que aquele almoço durava mais do que o determinado. Absorta em pensamentos que a tornavam invisível, esquecera que o tempo da refeição era apenas de uma hora.

- Alô?
- Alô.
- Pois não?
- Cadê o documento da reunião?
- Na mesma gaveta.
- Ah! Obrigado! Onde você está?

"Boa pergunta", pensou. Mas respondeu:

- Pagando a conta do almoço.

Não gostava de comer sozinha, pois pensava demais. Pensamentos desconectados da realidade. Por mais que lesse uma revista enquanto comesse, hábito inteiramente copiado de seu pai, as elucubrações eram sempre sobre outros temas.

Aquele hábito que ela detestava em si, de segurar as próprias mãos, enquanto falava sobre algo sério e, geralmente, desagradável, era ela ou seu trisavô? Adoraria atribuí-lo ao avô e livrar-se da responsabilidade.

Talvez a teoria das heranças fossem apenas uma desculpa para não enfrentar suas próprias dores e dúvidas.

Naquele momento, não reconhecia em si a erudição de seu pai, a habilidade de sua mãe ou a grandeza moral de seus avós. Reconhecia, porém, as neuroses. Reconhecia as culpas. Reconhecia o medo de contrariá-los na essência e não na superfície, como sempre havia feito.

Aliás, todas as formas superficiais de contrariá-los foram burras. Perdeu coisas boas, pelo simples ato adolescente de contrariar. Mas nunca atingiu o essencial, que sempre seguiu sem verdadeiros questionamentos.

fevereiro 14, 2009

Precisamos da arte para que a verdade não nos destrua.
Nietzsche

fevereiro 03, 2009

Um filme genial

Não é arrogância, mas prefiro não mencionar o nome do filme em português. Ele simplesmente entrega mais do que devia. Chama-se Revolutionary Road. Um filme genial.

Começando pelo meio, a película vale por um dos melhores personagens dos últimos tempos, o insano John Givings, um gênio-louco que conta todas as verdades do filme: se você não estava realmente entendendo, ele vai te explicar.

Num foco bem diferente de Beleza Americana, o diretor Sam Mendes volta a abordar o tema da hipocrisia, da vida medíocre, da coragem de tomar a decisão correta.

Em Beleza Americana o herói era um homem mediano que decide romper o "caminho esperado" para, por exemplo, ter emprego de menor status e viver com tempo.

Em Revolutionary Road, temos uma heroína descontente, procurando sentido na vida e intensidade.

O personagem de Leonardo di Caprio é um banana, para ser bem direta. O filme tenta amenizar o lado dele, mas, venhamos e convenhamos, é um banana. Ou como diria Michael J. Fox em "De volta para o futuro", é um "chicken".

Passado este parágrafo-comentário-revolta, o que tenho a dizer sobre o filme é: vá ver! É um filme daqueles que faz refletir sobre um monte de coisas: desde abstratos, como sentido da vida, imagem diante da sociedade, complexo de Édipo, seu papel no mundo, até concretos, como aborto, paternidade precoce, traição, sexo.

Imperdível. Um dos melhores de uma temporada excelente.

janeiro 29, 2009

Manhã de segunda

O meu desejo
é verde,

Paisagem
que rodeia
os pensamentos e que

observo




à distância.

janeiro 16, 2009

Hoje (nada senão o instante me conhece)

Gosto do Obama.
Não gosto do Chavez.
Admiro o Gabeira e a Danuza.
Desprezo o Sérgio Cabral e o Eduardo Paes.
Amo o Chico.
Adoro o Caetano.
Me decepcionei com o Gil.
Detesto o Bush.
Tenho sentimentos dúbios sobre o Lula. Idem sobre o FH.
Acho o Kassab uma figura intrigante.
E a Marta, arrogante.
Acho o Tom Zé muito Louco.
E o William Bonner, muito chato.
Tenho carinho pelo Paulinho da Viola...
Pena da Gal...
E ódio do Ahmadinejad.
Queria conhecer mais Ella Fitzgerald e Chet Baker,
Como conheço Tom e Vinícius.
Quero ter a vida do João Moreira Salles,
A saúde do Oscar Niemeyer,
A coragem do Amyr Klink,
A inteligência do Dostoievski
E o olhar do Charles Chaplin.
Resumindo, é isso.

janeiro 14, 2009

Eu quero a sorte de um amor tranquilo.

janeiro 12, 2009

Paz e passividade

Não reconheço a imagem dos judeus e de Israel que vejo na televisão, nos jornais, nas revistas. Sou judia, filha de israelense. Fui educada num ambiente essencialmente humanista, tolerante e de respeito ao próximo.

Fui ensinada a ouvir a opinião dos outros. E também a, quando discordar, discutir com respeito. Me ensinaram que "quem salva uma vida, salva o mundo". Que não há nada maior do que uma vida. Estes são os ideais judaicos que eu conheço e com os quais sempre convivi.

Conheci bem quase todos os meus avós e sei que essa tradição vem deles. Admiro a todos, principalmente considerando-se a história deles.

A família do meu avô paterno - pai, mãe, três irmãs e um irmão - foi assassinada durante a segunda guerra mundial na Polônia. Todos eram civis e extremamente religiosos. Minha família nunca pregou o ódio aos alemães ou aos poloneses. Nunca sequer citou algo como o fim de um dos países ou de uma das culturas.

A história dos meus avós maternos é semelhante. O pai da minha mãe nasceu na Alemanha. Todos os familiares mais próximos foram assassinados. Só ele sobreviveu.

Meus avós eram - e minhas avós são - pessoas afáveis, simpáticas, que sempre almejaram aproveitar a vida e curtir a família. Sempre pregaram o respeito ao próximo. Nunca falaram em ódio, repito, mesmo tendo passado por algumas das situações mais terríveis que um ser humano pode passar.

Mas uma coisa os judeus aprenderam com a Segunda Guerra: passividade não é sinônimo de paz.

Até que ponto, em nome de uma suposta paz, se pode tolerar agressões? Israel se retirou completamente de Gaza há cerca de 3 anos.

E, embora muitos preconceituosos não acreditem, Israel gostaria de que Gaza se desenvolvesse em paz, que seus habitantes tivessem acesso a saúde de qualidade, educação, lazer, cultura. Isso significaria a paz, que é o que deseja a maior parte da população israelense.

Quem não quer isso é boa parte dos dirigentes árabes. Basta ver como vivem suas populações. São eles que usam a população empobrecida e, muitas vezes, ignorante como massa de manobra. São eles que usam os palestinos como objeto de propaganda e manipulam as massas contra o inimigo comum (essa é velha: basta ler 1984!).

Defendo Israel porque fui criada dentro dos ideais do Estado judeu. E sei que eles nada têm a ver com o que muitas vezes se divulga na mídia. Israel sonha sim com a paz, a convivência pacífica e tolerante entre os povos e com o desenvolvimento humano e social de todos.

Repito: passividade não é simônimo de paz. Infelizmente.

janeiro 06, 2009

Israel
A desumanização de Israel em curso em alguns setores do planeta é um dos maiores equívocos contemporâneos, fruto do antissemitismo, da ingenuidade e da ignorância.
Sérgio Malbergier, jornalista

Depoimento de uma mulher corajosa

janeiro 03, 2009

Capítulo 4

Permitiu-se chorar naquele momento. Pensou em colocar uma música triste no MP3 e cultivar a tristeza como fez ao longo da adolescência, ao som do CD "Let it Be", dos Beatles. Mas o pensamento passou como uma rajada de vento em sua mente. Não era mais adolescente. Não queria mais cultivar a tristeza.

A lágrima quase solitária caiu lentamente, a tempo de senti-la deslizar em sua bochecha e secar por ali mesmo.

- A lágrima seca é um aviso.

Foi até o MP3 ligado a umas caixinhas de som e escolheu um sambão da Beth Carvalho, que adorava ouvir em festas animadas:

Chora!
Não vou ligar
Não vou ligar!
Chegou a hora
Vais me pagar
Pode chorar
Pode chorar

E começou a dançar sozinha.

Ligou para uma amiga querida, uma dos velhos tempos, a quem via e com quem falava época sim, época não.

- Oi!!!! Sabe o que estou ouvindo?
- Naninha, é você?
- Oi!!! Sabe o que estou ouvindo?
- Abaixa isso aí, pô!!
- Adoro essa música.
- Hahaha! Eu também! Tá animada, hein gata.
- Vamos sair?

Priscila havia se mudado para São Paulo um pouco antes de Ana, por pura coincidência - ou porque cedo ou tarde todos se mudavam para São Paulo. Estudaram juntas no colégio, mas nem sempre na mesma turma. Em algumas fases da vida, tiveram diferenças que a afastavam como ímãs virados para o mesmo pólo. Nunca brigaram. Simplesmente percebiam.

Em comum, as duas tinham o desejo de lidar bem com as diferenças. Numa fase, achavam tudo natural: amigos mauricinhos, amigos nerds, amigos suburbanos, amigos playboyzinhos, amigos maconheiros, amigos drogados, amigos certinhos, amigos doidões, amigos tímidos, amigos não-fede-nem-cheira... Todo mundo tinha alguma coisa especial, que ambas captavam com suas anteninhas moderninhas.

Enfim, ainda tinham contatos, mesmo que esparsos, com alguns exemplares de cada espécime. Mas não se pode negar que fizeram uma seleção inconsciente (talvez elas é que tenham sido selecionadas, não importa). Era a vida adulta mostrando mais uma de suas facetas.

- É muito chato ser adulto - soltou Ana, numa frase sem contexto.

Mas Priscila entendeu.

- Queria que alguém me dissesse se é melhor usar pregador de plástico ou de madeira, se é melhor comprar panela de inox ou com teflon, um colchão de mola ou de espuma, se omo é realmente melhor que ace... – listou uma infinidade de comparações esdrúxulas.

Uma das lamúrias mais constantes de Ana e Priscila após chegarem a São Paulo era a chatice da maioridade em vias de fato. Vivendo a cerca de 450 km de suas famílias, sentiram o choque da vida adulta com uma intensidade que não esperavam.

As duas consideravam-se maduras e responsáveis, capazes de resolver qualquer assunto. Mas, no fundo, ainda ansiavam pelo aval paterno. Levariam alguns anos para perceber isso e outros tantos para se livrar disso.

Saíram. Priscila reconhecia instantaneamente a TPM de Ana. Até que era divertida.

janeiro 02, 2009

Ano novo, vida velha

À meia-noite os fogos explodiram como era esperado. Alguns dos presentes foram tomados pela emoção das circunstâncias: o som espantoso, as luzes fortíssimas, as cores exuberantes. O ambiente era apropriado para a emoção. Os presentes abraçaram-se, alguns até choraram. Foi assim com quase todos os presentes – não conseguiu visualizar todo mundo-, mas não com ela.

Às vezes achava que não era afeita a emoções. Porém não era raro chorar assistindo ao noticiário, o que contrariava essa tese e a fazia pensar que não era correta. Mas por que os presentes emocionaram-se à meia-noite e não ela?

Olhou aqueles ao seu redor. Alguns vieram abraçá-la inclusive. Ela retornou os abraços, embora sem muito entusiasmo. Não sabia fingir emoção, o que era um de seus defeitos. Uma das presentes comentou com outro que ela era muito fria.

É claro, sua intenção não era que ela escutasse o comentário, mas entre um berro e outro, entre uma explosão e outra, entre um champanhe e outro, ouviu. Aquilo feriu fundo seu coração. Quase chorou – o que talvez tivesse sido bom para mostrar àquela vadia... – mas não gostava se mostrar frágil em público. E segurou o choro na garganta.

Seus olhos umedeceram, mas ninguém percebeu.

A última vez que chorara fora assistindo o Jornal da Globo, com William Waack e Christiane Pelajo. Uma pequena orquestra de crianças do interior do Pernambuco tocava uma obra de Mozart. Essa era a notícia. Sem mais, uma lágrima percorreu seu rosto, traçando um caminho sinuoso entre os olhos e a boca. Ela sentiu aquele gostinho salgado e lembrou de sua própria infância, quando tinha vergonha de chorar e se escondia no armário do quarto. E depois ficava saboreando o sabor salgadinho, até que era bom!

Essa viagem à infância não ajudou muito. Não entendeu direito por que não se emocionou, ao contrário de quase todos – ou todos – os presentes. Mas tudo bem. O momento logo passou, as emoções passaram, e quase todos – ou todos – seguiram mais um ano sem chororô.

novembro 03, 2008

Morrer na praia

Já tive muitas vezes a sensação de morrer na praia.

Quando o Bush ganhou as eleições duas vezes.
Quando a Rosinha ganhou as eleições duas vezes.
Quando o Brasil perdeu a Copa para os franceses na final.
Quando o Felipe Massa perdeu o campeonato por uma curva.

Uma das mais frustrantes foi quando Gabeira perdeu as eleições para prefeito do Rio, na semana passada.

Que pelo menos Obama vença as eleições para presidente do mundo.
Gabeira!

outubro 19, 2008

Antiguidades

No início da tarde, olhou em volta e percebeu que o céu estava branco. Pensou melancolicamente sobre o lugar onde estava. Embaixo do MASP, em cima das ruas de São Paulo. Caminhou pelo vão cheio de barraquinhas, com os mais diversos badulaques, que eles chamavam de "antiguidades". Observou as moedas com que comprava chicletes na infância, os brinquedos com os quais brincava, as latinhas de creme que com inveja via sua mãe usar. "Se são antiguidades, também sou". E talvez fosse.

Sentia-se uma antiguidade desde os 9 anos de idade, quando revelou aos amiguinhos que gostava de assistir ao jornal na TV e preferia as conversas ininteligíveis dos adultos a Carrossel.

setembro 11, 2008

Capítulo 3

Aquela cidade representava igualmente solidão e liberdade. Acolhimento e distância. Clichê que fosse, sua mais completa tradução era mesmo a música de Caetano.

Nada sentiu quando cruzou a Ipiranga e a São João. Lembrou-se apenas da Avenida Nossa Senhora de Copacabana, sem a praia a duas quadras dali.

O tempo a ensinaria a abandonar o ressentimento pela cidade cinza. Sentindo-se íntima, passaria a chamá-la de Sampa.

Admiraria sua organização caótica. Seria, então, impossível não pensar nos belos contrastes da cidade como uma Lapa amplificada.

"Em São Paulo as coisas acontecem", era o que Ana repetia e acreditava. Era por isso que estava ali.

A beleza de São Paulo não era óbvia como a do Rio de Janeiro, era uma beleza sutil. De repente, percebeu-se um homem do tipo mais ordinário, que não enxerga além de belas coxas e seios fartos, que não percebe que as mulheres mais bonitas escondem-se em detalhes.

Levaria bastante tempo para perceber tudo isso.

Naquele momento, Ana pensava que ter duas casas era como ter nenhuma. Era como sempre algo faltar. Era como nunca pertencer.

setembro 07, 2008

Capítulo 2

Ana compartilhava com Garfield seu ódio às segundas-feiras. Talvez sua melancolia fosse maior nesses dias. A consciência de ser acordada em horário pré-determinado por outros era mais intensa no primeiro (ou segundo?) dia da semana.

Sempre chegava atrasada no trabalho. Se dissesse que não a incomodava o zum zum zum dos colegas quando aparecia quase 40 minutos depois do horário estabelecido, mentiria. Ao mesmo tempo sua vontade era gritar: “acordai, irmãos! Acordai, mas acordai na hora em que bem entendei, puta que pariu!”.

Contraditoriamente, seu senso de responsabilidade era muito forte, assim como seu orgulho. Talvez por isso seu chefe poucas vezes ousara fazer insinuações sobre o hábito marginal de chegar atrasada pelas manhãs. Ana algumas vezes lutou contra ele – o hábito -, mas quase sempre perdeu. E, depois, desistiu.

Era essa sua demonstração torta de marginalidade. Sua forma de mostrar que não era igual. Tola. Tola. Ela sabia. Sua dualidade era o desejo inseparável de pertencer e esnobar, de querer igualar-se e diferenciar-se com a mesma intensidade. Pensou em colocar aí a origem de sua melancolia, mas sabia que estaria sendo, mais uma vez, tola.

Na hora do almoço, gostava invariavelmente de companhia, especialmente de uma menina que conhecera no trabalho. Ela pouco, quase nada, tinha em comum com Ana.

Júlia era doce, tímida e triste. Sentia-se sempre menos. Ana tinha um sentimento maternal por Júlia. Admirava sua sensibilidade, embora tivessem gostos tão diferentes. Júlia não gostava de ler, era fã das comédias românticas americanas e adorava comprar roupas. Mas sabia as pessoas muito antes delas mesmas.

- Vamos descer?, ligou para Júlia.
- Vamos. Vou terminar de escrever um e-mail. A gente se encontra lá embaixo em 5 minutos, disse Júlia, desligando o telefone.

Quando Ana chegou ao lobby do prédio, Júlia já estava lá. Ela sempre chegava antes, nunca deixava ninguém esperando por ela. No íntimo, tinha um medo danado de ser esquecida.

- O Pedro não me ligou de novo. Não entendo o que está acontecendo.

Os homens de Júlia sempre a abandonavam aos poucos. Como se realmente deixassem de lembrar e, aos poucos, ela desaparecesse para eles.

Ana sentia uma tristeza por Júlia. Qual homem conseguiria ver por trás de suas distorções defensivas e a enxergaria realmente?

- Você também parece triste, Ana. Não fica não. A gente acaba se adaptando a tudo.

Júlia talvez tivesse razão, mas Ana sempre tivera dificuldade de adequar-se e, em São Paulo, essa falta parecia ainda maior.

No início, muita coisa a incomodava tremendamente em São Paulo. Sabia que muito era implicância, pura saudade de casa, recalque mesmo. Entretanto, nem tudo, nem tudo...

Começava pelo sotaque de uma parte dos paulistanos. Ao contrário de muita gente, não a incomodava o “r” caipira, quase americano, dos nativos do interior de São Paulo. Era o modo meio anasalado de falar, pronunciado especialmente por algumas “patricinhas” locais, que lhe dava arrepios.

O ar provinciano – pois é, dizia isso – de alguns paulistanos a surpreendeu. Essa mania de exibir o que têm, de só “freqüentar” determinados lugares “bem freqüentados”, por gente igual que só “freqüenta” os mesmos locais, essa mania era irritante demais para ela.

O cabelo liso da maioria das meninas, sempre de maquiagem, sempre de salto alto, sempre de bolsa-combinando-com-sapato, tudo isso a fazia sentir-se um peixe fora d’água.

Apesar de todas as críticas, tentava adaptar-se. Embora tenha se recusado a alisar os cabelos, comprou os tais sapatos de salto e adotou a maquiagem no dia-a-dia. Mas sempre achava que os outros perceberiam que não era ela ali atrás.
City Lights (Charlie Chaplin, 1931)

Uma das melhores seqüências do cinema.

Gênios

Nelson Freire


Jascha Heifetz


P.S. Música de Gluck, dica do Paulo

setembro 04, 2008

Uma dor

Trago em mim uma dor.
Não a dor pungente dos poetas.
Mas a dor suave das meninas.

A dor das meninas que se sabem meninas.

agosto 22, 2008

Quando húngaro faz sentido

Quando a tarde caiu e a Dança Húngara ainda não havia sido interpretada, sentiu uma frustração tremenda.

Desde que assistira O Grande Ditador, de Chaplin, a Dança Húngara, de Brahms, tornara-se sua música favorita daquele momento.

Alegre, agitada, humorística e linda. A Dança Húngara fazia com que sentisse vontade de dançar mesmo, embora nunca houvesse visto ninguém dançar embalado ao som da Dança Húngara.

agosto 10, 2008

Capítulo 1

Um depois do outro. Para baixo e para cima. Esticados e dobrados. Unhas brancas. Pés gelados. Olhando para eles, Ana pensava no que faria aquela tarde.

Acordara minutos antes ao som do alarme antibombas da Paulista. Nunca entendera direito para que um alarme antibombas em momentos de paz, em um país que nos tempos recentes não conheceu a guerra (à parte a urbana).

De qualquer forma, por motivos bem pessoais, gostava daquele alarme. Ele impedia que ela dormisse demais aos domingos. Meio-dia estava sempre de pé. Ou ao menos de olhos abertos.

Naquele domingo, 10 de abril de 2005, ela ainda não havia levantado da cama. Olhava para seus pés, pensando aonde os levaria naquela tarde.

Sempre precisava ao menos de uns 20 minutos para sair da cama. O momento de acordar era o pior de seu dia. Preguiça. Não era uma mulher (mulher?) diurna.

Contraditoriamente, odiava, sim a palavra é odiar, odiava fazer nada.

Levantou.

Apartamento de um quarto grande até, para os dias de hoje. Estava de bom tamanho para alguém sozinha.

Os pés gelados no chão, andava pela casa. Há um ano chegava a Sampa. Achou que seria uma reviravolta na sua vida. Não teve medo. Estava cansada no Rio, sentindo-se empacada.

Realmente, a reviravolta veio. Não foi exatamente como ela imaginava. Foi o fim de sua infância protegida. Não sabia que o tempo atual era bem diferente do tempo da casa dos seus pais.

Viveu em casa os amores fraterno e paterno. Conheceu a ética, o bem-estar, as brigas e revoltas também, é verdade. Mas tudo com muito respeito.

Criança que era, achava que conhecia o mundo, esnobava a ingenuidade e tinha certezas “absolutas”. Achava que a mentira era para poucos, vejam só. E o pior. Acreditava que era forte. Que se virava sozinha. Que sempre saberia o que fazer. Que o afeto era fácil.

Em Sampa, conheceu a solidão. E não estava sozinha.

Quando, enfim, tomou um banho e se arrumou para sair, já eram mais de duas da tarde.

Foi à livraria FNAC da Paulista. Morava a uma quadra da avenida, na Campinas, do lado menos nobre, o centro. Havia lido em algum lugar que a FNAC não gostava de ser chamada de “livraria”, porque era mais do que isso. Não gostou. Pensava: o que pode ser “mais” do que uma livraria? Nunca deixou de ir, entretanto.

Comprou o jornal e sentou no café da livraria. Leu o jornal de ontem, com notícias de anteontem, como já dizia o poeta. Essas coisas rápidas dos tempos de hoje, às vezes a incomodavam. Principalmente aos domingos. Não navegava na internet, sequer ligava o computador nos fins de semana. Era uma regra que se impôs.

- Naninha!

Virou. Só seus amigos mais próximos e antigos a chamavam assim. Mal acreditou quando viu Alexandre. Amigo de colégio. Graaande Alex!, respondeu.

Que saudade! Que saudade! Era o afeto de que precisava. Alex sempre foi um de seus amigos mais inteligentes e afetuosos. Não daquele afeto superficial, sem compromisso. Mas de um amor real, que sempre estava presente quando um de seus queridos precisava.

Ao mesmo tempo, sabia ser sarcástico e irônico quando queria. Tinha um discurso cínico, que não combinava com seu jeito de ser. Quem o conhecia, sabia.

- Naninha, que saudade!
- Puxa, você veio para Sampa e nem me ligou...
- Vim a trabalho na sexta, ia voltar no mesmo dia, mas decidi ficar mais alguns.
- Entendi. Que bom te ver! O que você vai fazer hoje? Está sozinho?
- Vou encontrar uma menina mais tarde. Conheci num barzinho na sexta.
- Entendi. Legal! Senta aí. Vamos tomar café juntos.

Sentiu as ondas de afeto, a delicadeza do sentimento que dá sem pedir retorno, e sentiu-se como uma bateria quase vazia colocada em uma tomada. Feliz.

Alex não era bonito. Ao contrário, muitos diriam que era feio mesmo. Ela, no dia que o conheceu, também achou. Mas, hoje, brigava quando falavam algo do tipo a seu respeito. Sempre dizia:

- Ele é um dos caras mais bonitos que já conheci.

E realmente achava. Não metaforicamente apenas. Achava.

Conheciam-se há dez anos. Brigaram uma vez, quando tinham 16. Os dois, muito competitivos, tiveram uma discussão áspera por causa de um jogo de sua época, chamado “Imagem e Ação”. Ana tinha certeza de que não era permitido usar o alfabeto, nenhuma letra! Ele insistiu no contrário. Brigaram e ficaram várias e intermináveis horas sem se falar.

Depois voltaram. Falaram-se como se nada houvesse acontecido.

E esta foi a briga que tiveram.

Ana pensava em Alex como um irmão. Gostava dele de uma forma infinita, muito terna. Mas não era sexualmente atraída por ele. Ao contrário, houve um período em que Alex foi realmente apaixonado por Ana, nos idos dos anos 90. Este período passou. Passou de todo coração. E Alex via Ana como uma irmã.

- O que você tem feito de bom?
- Trabalho. Trabalho.
- É, eu também.
- Gosto do meu trabalho, só que às vezes sinto falta da arte.
- Eu estou bem. Gosto muito do que faço. Trabalho demais, às vezes me estresso, mas não consigo pensar na vida de outra forma, contou Alex.

E ficaram conversando por algumas horas, uma conversa de quem se vê sempre. Uma conversa que não indicava que há muitos meses eles nem se falavam, pelas distâncias da vida.

Quando Alex teve que ir embora para encontrar a menina, Ana estava feliz, apenas por ter encontrado o amigo. Sentia-se outra. Mais confiante, a Ana de antigamente.

Era engraçado. Ana tinha convicções muito fortes sobre a vida. Sabia muito sobre o certo e o errado, o bom e o mau, o querer e o não-querer. Aquele ano sozinha em São Paulo abalou suas certezas. E o contato com Alex fazia com elas voltassem, ao menos por algum tempo.

julho 24, 2008

É inútil!

Eu vi e pensei: "para que serve?"

Não sabia mesmo. Talvez soubesse lá no inconsciente, mas lá tão longe que parecia intuição.

Para que serve? Para que serve?

Remoía-me. Precisa servir? Se não precisa, me angustia. Tem que servir!

A busca da utilidade dos concretos e dos abstratos me corrói.

julho 20, 2008

Cumplicidade.
No amor,
no crime.
Nos atos ilícitos,
nos casos íntimos.
Por dias felizes,
por fatos críticos.

Na cumplicidade,
uma vírgula,
um risco.

julho 10, 2008

Não sei

Não sei... Se a vida é curta
Ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
Não seja nem curta,
Nem longa demais,
Mas que seja intensa,
Verdadeira, pura... Enquanto durar

P.S. Este poema é atribuído na net à Cora Coralina. Não consegui confirmar essa informação. De qualquer forma, achei lindo, simples e delicado. E faz sentido que tenha sido escrito por uma mulher. Que seja Cora.

julho 09, 2008

Winehouse

Essa menina é mesmo fantástica. Adoro a voz dela.

Há tempos não via um cantor fazer fama por ser realmente bom e não por simples marketing e jabá.

julho 07, 2008

Visitas

De vez em quando a tristeza me visita.

Uma vez, ela fez umas cócegas e me levou a rir com amargura.

Outra, me deu um cansaço tão grande que fiquei com preguiça de abandoná-la.

Agora não sei.

Já me disseram que dessa vez não foi a tristeza, mas a melancolia que me procurou.

Mas não seriam a mesma?, perguntei. Se não a mesma, parentes muito próximas. Mais que primas, mais que irmãs. Talvez gêmeas. Parecem-se muito, mas jamais são realmente idênticas.

A melancolia me visita com mais freqüência talvez.

Às vezes com motivo, às vezes sem.

junho 02, 2008

Ponte Aérea

Labirintos de algodão se formaram em minha frente. Já os tinha visto antes, mas nunca percebi que eram labirintos. O azul em volta, tão calmo, dava a certeza de que o branco era doce. Mas os labirintos se formaram em minha frente, eram óbvios, eram labirintos. Vários. E cada vez que desvendava um, outro aparecia. Aqueles enigmas intermináveis, infinitos como o céu, me angustiaram. Depois, entristeceram-me. Depois, deixaram-me pensativa. Depois, intrigaram-me. E é nesta estágio em que me encontro hoje.

abril 09, 2008

Pasárgada está em mim?
Sempre sonhei com Pasárgada.

Será que algum dia encontrarei Pasárgada?
Vou-me Embora pra Pasárgada

Manuel Bandeira


Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei



Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconseqüente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive



E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d'água

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada



Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcalóide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar



E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

— Lá sou amigo do rei —

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada.

fevereiro 21, 2008

Pra viagem, por favor!

"Toda boa viagem rende uma boa história. Só que quando conversamos sobre viagens, fica aquela impressão de que o dono da melhor história é sempre aquele que foi para mais longe. Mentira, uma das melhores viagens que se pode fazer é pra dentro da própria cabeça, ou seja, pertinho.

Sendo Eu é isso: uma viagem para dentro de nossas cabeças, repletas de outras viagens que foram divididas em 12 faixas de muito rock-simpatia. E não podia ser diferente, companhia itinerante que se preze tem mais é que viajar. Morando no Rio, então, nem precisa ir muito longe. Basta pegar um "5-7-qualquer-coisa", parar em algum boteco e bater um papo com os amigos.

Tudo bem, falar sobre si mesmo é sempre complicado - temos a tendência de esconder defeitos e aumentar as qualidades. Entretanto, esse não é o caso de "Sendo Eu". Desta vez, fomos sinceros para reconhecer que não somos flor que se cheire, românticos para fazer declarações de amor, e até rancorosos a ponto de mandar alguém para a Conchinchina.

Portanto, confiram. Sendo Eu já está nas lojas, distribuído pela Som Livre, junto com os primeiros lançamentos do selo Som Livre Apresenta.

E como o disco nada mais é do que um jeito de levar o show pra casa, é só chegar e pedir: pra viagem , por favor!

Informações Técnicas "Sendo Eu" é nosso segundo disco. Foi gravado entre janeiro e agosto de 2007, em casa e no estúdio Boombox (Rio de Janeiro). Mixado por Pedro Garcia no estúdio Boombox e masterizado por Bob Weston no Chicago Mastering Studio (EUA - Chicago).

Breve Histórico 2007: GAS Festival (Guaraná Antártica Street) e Festival do Edgard 2006: Noite Branca, Fundição Progresso, Atitude.com, Mola (Mostra Livre de Artes), Geringonça (SESC-Tijuca), Sopa de Entulho(SESC-Madureira), Vespeiro e Mistureba Rock Clube. 2005: Lançamento do disco "Um conto de Pragmatismo Fantástico", Prêmio London Burning (categoria revelação) e Festival de Primavera PUC-Rio. 2004: Lançamento da Primeira Demo. 2000: Sprite Sounds.

Companhia Itinerante é:
Caio Figueiredo - Voz e guitarra
Chico Junqueira - Baixo e voz
David Bessler - Guitarra e voz
Diogo Salles - Guitarra e voz
Jonathan Gregory - Bateria e percussão


Contato
companhiaitinerante@yahoo.com.br
www.companhiaitinerante.com
Dala Mídia (21) 2547-1690 | (21) 8771-7007
dalamidia@gmail.com"

De: http://www.somlivreapresenta.com.br/artista_companhia.asp

janeiro 27, 2008

Filmes do fim de semana

Filmes excelentes no fim de semana. Dois marcantes: Noivas e Lanternas Vermelhas.

Vou escrever sobre o primeiro, já que o segundo assisti com muitos anos de atraso.

Filme grego, com produção executiva de Martin Scorsese, Noivas conta a história de jovens mulheres, especialmente gregas, que cruzaram o oceano em época de guerra e escassez de homens, para casar com desconhecidos. Os futuros maridos eram imigrantes que foram viver nos Estados Unidos e procuravam esposas em sua terra de origem.

A película é extremamente sensível e feminina. E, aliás, nisso Noivas lembra Lanternas Vermelhas. Ambos me fazem pensar em como minhas antepassadas sofreram com a falta de opções de vida, sendo dependentes de homens, sem poder de escolha sobre suas vidas.

Com todos os problemas de nossa época, fico feliz de ter nascido hoje, sendo dona de minhas escolhas e de minha sexualidade.

Enfim, recomendo os dois filmes. Noivas têm um casal de protagonistas cativante, uma história de amor bonita e realista. Sobre Lanternas Vermelhas não há muito mais o que dizer. Não é à toa que virou um clássico.

janeiro 06, 2008

Ano novo

O que há de novo? Essa mania de vivermos em ciclos...

novembro 03, 2007

Piaf
Em meio ao feriado de trabalho, chuvoso para ajudar, não me restou muito mais o que fazer do que assistir a alguns filmes. Foram 5 em 2 dias. Um não me sai da cabeça, mais pela música do que pelo filme em si: Piaf, um hino de amor.

A película não é brilhante, no conjunto parece mais uma colagem de cenas, do que um único filme. Acho que a edição que o diretor pensava não funcionou muito bem. Isso não significa que não tenha gostado. Há momentos inesquecíveis, a começar pela atriz, que é inacreditavelmente perfeita! Cativante, ela sim, brilhante.

Outro ponto alto do filme é a própria história e personalidade de Edith Piaf. É difícil pensar que tanto aconteceu em menos de 50 anos: a morte de uma filha, o auge e o fundo do poço e o auge novamente, o vício, um grande amor, uma queda de avião...

Mas, no fim das contas, o que fica mesmo é a música. Não páro de ouvir (no Youtube há várias gravações originais) e pensar nas músicas do filme desde que saí da sala de cinema. A canção que realmente não sai da minha cabeça é uma das mais famosas delas, que encerra o filme. Belíssima na voz de Edith:

Non! Rien de rien
Non! Je ne regrette rien
Ni le bien qu'on m'a fait
Ni le mal tout ça m'est bien égal!

Non! Rien de rien
Non! Je ne regrette rien
C'est payé, balayé, oublié
Je me fous du passé!

Avec mes souvenirs
J'ai allumé le feu
Mes chagrins, mes plaisirs
Je n'ai plus besoin d'eux!

Balayées les amours
Et tous leurs trémolos
Balayés pour toujours
Je repars à zéro

Non! Rien de rien
Non! Je ne regrette rien
Ni le bien, qu'on m'a fait
Ni le mal, tout ça m'est bien égal!

Non! Rien de rien
Non!Je ne regrette rien
Car ma vie, car mes joies
Aujourd'hui, ça commence avec toi!

http://www.youtube.com/watch?v=i_QABS88nDc

outubro 20, 2007

Rio de janeiro, fevereiro e março

Havia um sentimento vago, fantasioso e mesmo literário de que se morresse naquele momento, caindo sobre as águas da Guanabara, não morreria.

A morte passava-lhe ao longe e, ao mesmo tempo, era-lhe íntima. Temia e desejava o limite, porém, inexplicavelmente.

Como é linda e fabulosa a minha cidade. Como sou triste longe dela. Ao menos, neste momento, acho. Vendo-a quase completa. Vendo-a inacreditavelmente ainda mais bela. Sob a ponte aérea, a ponte marítima e a ponte terrestre.

As águas negras da Guanabara.

outubro 08, 2007

Insensatez

Aproximei-me de novo. Olhei. Não vi por detrás de seus olhos. O amassado por entre suas negras sobrancelhas me questionava. Não sabia o que dizer. Distanciei-me de novo.

Pensei em abraçá-lo, mas não tive coragem. Estava de costas agora. Senti o frio na espinha. Tinha mais certeza de si quando não o via. Beijei-o na cabeça. Mas ele não percebeu. E sua tristeza continuou me envolvendo.

Sentia-me, mas não me sabia, fonte de sua infelicidade. Talvez não devesse ter saído naquele momento. Eu era fria. Nada. Ou era o oposto. E preferia não estar ali e fugir. E pensei mais em mim do que nele.

Naquele momento, desacreditei todas as minhas crenças. E fiz-me quem não era (ou desfiz quem gostaria de ser).

How insensitive
Antonio Carlos Jobim / Vinicius de Moraes / Norman Gimbel

How insensitive I must have seemed
When she told me that she loved me
How unmoved and cold I must have seemed
When she told me so sincerely
Why? She must have asked
Did I just turn and stare in icy silence?
What was I to say
What can you say
When a love affair is over
Now she's gone away
And I'm alone
With a memory of her last look
Vague and drawn and sad
I see it still
All her heartbreak in that last look
How, she must have asked
Could I just turn and stare in icy silence
What was I to do
What can you do
When a love affair is over

outubro 07, 2007

Solidão Paulista (de 2005)

Solidão. Como uma mulher como ela poderia se sentir tão só? Uma mulher. Uma mulher? Uma confusão. As velhas questões humanas, repetidas e repetidas e repetidas por milhares de anos, repetiam-se também em sua mente. Quem era ela? O que ela queria? Por que se sentia tão só? Por que essa melancolia não passava?

Solidão. Tentava fugir dela. estava sempre cercada de gente. Às vezes esquecia. Mas era por pouco tempo. Ela se achava especial. Pensava que não era digna daquele sentimento.

Mas os livros pela mesa, a televisão sempre ligada, o rádio como companheiro, a necessidade do som a sua volta. Sons humanos. Carecia de humanos. Queria gente por perto. Mas quando a gente estava por perto, muitas vezes preferia ficar sozinha.

Só. Com seus pensamentos. Devaneios. Questionamentos. Desrespostas.

Decidiu sair. Caminhar. A avenida Paulista estava cheia de gente. Camelôs, shoppings de contrabandos, transeuntes. Tanta gente. Mas ela queria conhecer estas pessoas? Seriam interessantes? O que elas têm a dizer por mais de cinco minutos?

Será pretenciosa, arrogante e preconceituosa? A maioria das pessoas lhe parecia tão desinteressante e ao mesmo fascinante. Um sentimento dúbio de que todos têm algo a ser explorado, desvendado, mostrado. Mas por algumas horas ou minutos. Quem ela quer conhecer profundamente?

O rapaz de gorro de lã passa ao seu lado. O que ele tem a dizer? Nunca vai saber. Talvez nunca mais o veja e, se o ver, provavelmente, não o reconhecerá.

Ligar para os amigos? Para as amigas? Para a lista de telefones do seu celular? Mas, quem são todas essas pessoas? Talvez conheça, realmente, cinco ou seis.

Do seu lado direito, o Masp. Do seu lado esquerdo, o Trianon. O vão, aquela área imensa vazia e eterna, ampliava sua solidão.

...
Foi um rio que passou em minha vida
(Paulinho da Viola)

Se um dia meu coração for consultado
Para saber se andou errado
Será difícil negar
Meu coração tem mania de amor
Amor não é fácil de achar
A marca dos meus desenganos ficou, ficou
Só um amor pode apagar
Porém (ai, porém)
Há um caso diferente que marcou num breve tempo
Meu coração para sempre
Era dia de carnaval
Carregava uma tristeza
Não pensava em outro amor
Quando alguém que não me lembro anunciou:
Portela! Portela!
O samba trazendo alvorada
Meu coração conquistou
Ai, minha Portela, quando vi você passar
Senti o meu coração apressado
Todo o meu corpo tomado
Minha alegria voltar
Não posso definir aquele azul
Não era do céu; nem era do mar
Foi um rio que passou em minha vida
E meu coração se deixou levar

junho 04, 2007


Greed has poisoned men's souls; has barricaded the world with hate; has goose-stepped us into misery and bloodshed. We have developed speed, but we have shut ourselves in. Machinery that gives abundance has left us in want. Our knowledge as made us cynical; our cleverness, hard and unkind. We think too much and feel too little.
Charles Chaplin

março 31, 2007

X - A Questão

A professora tinha uma letra bonita. Quando crescesse queria ter uma letra igual a dela. A que mais gostava era o X.

O X era engraçado, mas, ao mesmo tempo, despertava nela uma profunda compaixão. "Coitadinho do X", pensava, sentida.

Afinal, o X era relegado a alguma palavras pouco usadas. Às vezes, era mesmo renegado. Quem escreve xampu com X?, perguntou-se certa vez.

Outro questionamento que sempre se fazia era: quem inventou o CH? Sujeito muito burro ou muito cruel. Se já existe uma letra com som de X - o próprio, por acaso - para que juntar duas letras que criam o mesmo som? Nada prático.

Queria perguntar essas perguntas para a professora, mas ficava envergonhada. Olhava para o quadro e ficava a admirar a letra da professora. Queria que ela escrevesse uma palavra com X.

Mas isso nunca acontecia...

março 17, 2007

Terça-feia

Terça-feira era um dia triste para ela. Terça feia!, sempre pensava. Para segunda-feira, preparava-se psicologicamente, mas terça era a confirmação de que a semana começara com toda força.

Deitada em sua cama, ao lado do despertador histérico, sonhava com aquele samba: "eu faço samba e amor até mais tarde e tenho muito sono de manhã". Não sabia se preguiçosa ou se covarde, mas terrível era acordar terça-feira de manhã cedo.

Se cinzento o céu, então!, aí não havia como! Puxava o cobertor fofo e quentinho, enfiava a cabeça no travesseiro e... nem pensava no trabalho. Depois, depois.

"Patrão, o trem atrasou, por isso estou chegando agora. Trago aqui o memorando da Central. O trem atrasou meia hora. O senhor não tem razão para me mandar embora", diria.

Melhor era o mundo do sonho! Melhor era curtir um sambinha! Melhor era não precisar acordar na hora certo!

Ao menos, nas terças-feiras...

"Sonho meu!", suspirou. E levantou, sacudindo a poeira.

março 04, 2007

Papai

http://www.youtube.com/watch?v=8QXfFhe1d28
Seria uma vez...

Quando era criança, eu teria uma casa muito linda. Branquinha e de telhado vermelho como nos sonhos clássicos. Uma rede balançaria na varanda. Eu seria independente. Trabalharia no que eu gostava. Teria um marido lindo, carinhoso e compreensivo. No futuro, teria um casal de filhos. Numas longas férias, eu moraria com toda família num barco confortável e conheceria o mundo todo. Faria muitos amigos e falaria, pelo menos, cinco idiomas. Quando eu era criança, eu seria assim.
.

março 01, 2007

Um pouco de Nietzsche

- Existe uma inocência da admiração: a daquele ao qual ainda não ocorreu que pode vir a ser admirado um dia.

- Como? Um grande homem? Consigo ver apenas o ator de seu próprio ideal.

- Não existem fenômenos morais, apenas uma interpretação moral dos fenômenos.

fevereiro 11, 2007

Perdidos


A dor une a humanidade? Acho que hoje mais do que a dor, a solidão. A solidão acompanhada, como a mostrada em Encontros e Desencontros, é cada vez mais comum. Será esse nosso futuro?

A gente vive, procura novas experiências, se joga, é independente. Mas ser independente é bom? Eu prefiro depender de um sentimento.

É impossível ser feliz sozinho.
Chefão

Comprei a caixa com os três filmes do Godfather. Não lembrava como os filmes são poderosos, bem filmados, têm grandes atores e música maravilhosa. Tudo perfeitamente encaixado. Muito bem pensado. Vou assistir de novo!
Melancólica

Acho que tenho uma personalidade meio melancólica. Comprei um CD de samba e em vez de ouvir sambas alegres, que são maioria, fico repetidamente ouvindo músicas como A Flor e o Espinho.

Acho linda...

Não há mal em cultuar um pouco a tristeza.

fevereiro 06, 2007

Tire seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor.

fevereiro 04, 2007

Samba é tudo de bom

Um pouco de Cartola. Triste, mas alegra o dia. :)

O mundo é um moinho
Cartola

Ainda é cedo amor,
mal começaste a conhecer a vida,
já anuncias a hora da partida,
sem saber mesmo o rumo que irás tomar.

Presta atenção querida,
embora eu saiba que estás resolvida,
em cada esquina cai um pouco a tua vida,
em pouco tempo não serás mais o que és.

Ouça-me bem amor, preste atenção,
o mundo é um moinho,
vai triturar teus sonhos tão mesquinhos,
vai reduzir as ilusões à pó.

Presta atenção querida,
de cada amor tu herdarás só o cinismo,
quando notares estás a beira do abismo,
abismo que cavaste com teus pés.

Ainda é cedo amor,
mal começaste a conhecer a vida,
já anuncias a hora de partida,
sem saber mesmo o rumo que irás tomar.

Presta atenção querida,
embora eu saiba que estás resolvida,
em cada esquina cai um pouco a tua vida,
e em pouco tempo não serás mais o que és.

Ouça me bem amor,
presta atenção o mundo é um moinho,
vai triturar teus sonhos tão mesquinhos,
vai reduzir as ilusões a pó.

Presta atenção querida,
de cada amor tu herdarás só o cinismo,
quando notares estás a beira do abismo,
abismo que cavaste com teus pés.
Poemas tristes

Tabacaria é uma das grandes poesias da língua portuguesa. E um retrato do que não quero para mim.

Um trechinho para dar o gosto.

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

(Álvaro de Campos)

fevereiro 03, 2007

Confusões

Não comandamos nossos sentimentos. Não sabemos quando vamos sentir desejo, repulsa, ódio, amor...

Podemos às vezes tentar manipulá-los um pouco. Mas a verdade é que o sentimento original está sempre lá, disfarçado, distorcido.

As falsas proteções que criamos, em geral, trazem dores ainda maiores. Transformam-se em mostrengos internos. Criam atitudes “defensivas”, quase por reflexo, que nem nós mesmos entendemos.

Complica mais ainda saber que a busca do auto-conhecimento tem que destruir, ou ao menos ultrapassar, todas essas distorções. E que muitas vezes não as conhecemos.

Não sei o que é mais complicado: eu ou o mundo.

janeiro 27, 2007

Tardinha
A tardinha passou voando. Um papo gostoso, muitas risadas. Cervejinha, vinhozinho, muita besteira.

Adoro passar a tarde com as amigas.

dezembro 29, 2006

O velho ditado

Escolhas, escolhas, escolhas... Há algo mais clichê do que "a vida é feita de escolhas"?

Mas o pior é perceber na prática quando se fez uma escolha errada. Hoje, por exemplo, não deveria estar em Itaipu. Decisão totalmente errada, impulsiva, burra, pode-se dizer.

Mas o pior é perceber que não tiro nenhuma lição disso. Não há o "pelo menos", o lado bom, o aprendizado. Algo me diz que vou continuar fazendo escolhas erradas por muito tempo na minha vida.

Mas às vezes acerto.

Mas...

dezembro 18, 2006

Eu quero um samba
(Haroldo Barbosa e Janet de Almeida)

Eu quero um samba feito só pra mim
Eu quero a melodia feita assim
Quero sambar
porque no samba eu sei que vou
A noite inteira até o sol raiar

Ah! Quando o samba acaba,
eu fico triste então
Vai melancolia, eu quero alegria
dentro do meu coração

Ah! Quando o samba acaba,
eu fico triste então
Vai melancolia,
eu quero alegria
dentro do meu coração

Eu quero um samba feito,
um samba feito só pra mim
Eu quero a melodia feita assim
Quero sambar
porque no samba eu sei que vou
A noite inteira até o sol raiar

dezembro 10, 2006

Dia e noite, noite e dia

Tarde da noite. Aquela luminosidade que apenas as madrugadas têm inquietava os olhos e animava o coração. Tudo ficava claro, simples, sem obstáculos. Pelo menos, até a manhã posterior.

Dia. Era impressionante como a luminosidade do sol do meio-dia ofuscava a visão. Dúvidas, intrigas, incertezas, culpas. Tudo aparecia pela manhã.

dezembro 05, 2006

O (maldito) desejo

A difícil arte de conciliar o querer e o poder. Ou melhor, o querer e o fazer. O desejo às vezes é imenso, mas o medo pode ser maior. Até que ponto o medo é proteção, segurança e até que ponto é burrice, limitação?

Desejar mergulhar em um mundo e ficar apenas na beiradinha, apreciando de longe, com uma certa inveja de quem está lá dentro, pode ser um sofrimento indescritível. Será maior do que o sofrimento da frustração?

Ou será que o planejamento-a-longo-prazo dá certo?

A vida é uma só. Não há tanto tempo para esperar a resposta certa.

outubro 29, 2006

Do verde para o colorido

O tempo passa, a gente amadurece. Parece uma coisa assim pretensiosa e talvez seja. Pode ser que amanhã olhe para trás e pense: como era boba. E sou. Mas menos. É aos poucos mesmo.

Amadurecer. Quando eu era criança ouvia essa palavra e já associava: gente madura, gente chata!

Descobri que é o contrário. Gente madura deixa de ser chata. E curte o que há de melhor na vida.

agosto 31, 2006

Morfeu

Sono. Os olhos fecham apesar da luminosidade e dos ruídos constantes à sua volta. Mas ela nem sente. Ouve umas palavras soltas, que pouco significam: gestãããão... fixaaaa... esforçççç...

Manter as pálpebras abertas é quase tão complicado quanto o que o professor diz. Mover um músculo, levantar um dedo, separar o lábio inferior do lábio superior. São muitos músculos.

O sono é sagrado, pensa - ou sonha, não tem certeza. Nada mais correto do que respeitar o sono. A essência sobre a matéria. O desejo sobre a obrigação. Conforta-se. Aconchega-se. Enfim, dorme.

agosto 27, 2006

Tristeza
É estranha e engraçada a tristeza da solidão. Uma certa mistura de autopiedade melodramática que leva alguém a colocar uma música triste apenas para se deliciar mais de sua própria condição - a consciência da miséria humana. As divagações ganham espaço: o que une a humanindade é a dor.

O melodrama é sempre tragicômico. O exagero tira um pouco da sinceridade da dor. Beira o absurdo. Mas os latinos temos isso: somos capazes de expor e depois rir da dor.

Tristeza não tem fim felicidade sim. Uma frase um tanto trágica para uma bela música. Todo grande amor só é bem grande se for triste. É outra canção. A tristeza é senhora. E assim há milhares de canções que enaltecem a tristeza. Não é engraçado?

agosto 25, 2006

O Afeganistão fica logo ali

Nada como bons livros para tornar humano tudo aquilo que nos parece estrangeiro.

Dois excelentes livros - distintos e complementares - sobre o Afeganistão. Ou melhor sobre a gente do Afeganistão. Quem são, o que sentem, como vivem. Os dois estão nas listas dos mais vendidos, no Brasil: O Caçador de Pipas e O Livreiro de Cabul.

agosto 17, 2006

Braços Abertos sobre a Guanabara

O coração bate mais forte. Sinto a maresia antecipadamente. Aquele cheiro de sal e umidade, gotículas microscópicas por todo o corpo. Que saudade, que saudade!

As montanhas, as cores, o mar. Que saudade do azul e do verde! Todos meus sentidos despertam. O som das ondas, a cor dos dias ensolarados, o gosto do sal, o cheiro do mar, a sensação da maresia no rosto.

Minha cidade é mesmo linda como as canções de Tom e Vinícius.

Minha cidade é a mais bela.


(E eu, nostálgica...)

agosto 13, 2006

Arte

A arte purifica a alma e traz de volta a realidade. É essa a minha sensação ao término da Festa Literária de Parati.

A arte é necessária para nos lembrar de quem realmente somos, do que realmente queremos. Ela é o real. Ou, como disse a Adélia Prado, de quem me tornei fã, é a transcendência de que tanto precisamos para viver.

É como se a rotina e o dia-a-dia duro das escolhas "racionais" empoeirassem nosso olhar e precisássemos da arte como uma espécie de limpador de um para-brisa sujo, para tornar a realidade mais visível, para nos lembrar do que é real: além da nossa razão, a nossa emoção - principalmente.

A música, a literatura, a poesia, as artes plásticas, o cinema são necessários como é necessário comer e trabalhar para sobreviver.

Às vezes esqueço disso. Não queria.

agosto 05, 2006

Companhia Itinerante

Meu irmão está ficando famoso!

Ele é guitarrista de uma banda muito boa, a companhia itinerante, que acabou de fazer um show e dar entrevista no programa atitude.com da TVE.

Para saber mais e ouvir:

http://www.companhiaitinerante.com/
http://www.fotolog.com/ciaitinerante/
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=662974

julho 30, 2006

O Doce Vagabundo

Ontem vi, mais uma vez, Luzes da Cidade e, mais uma vez, chorei no final. Que linda a última cena deste filme. Arrisco dizer que é uma das mais bonitas do cinema (pelo menos do que já vi). É de uma ternura, de uma tristeza, de uma emoção sem exageros, de uma doçura...

É por isso que amo os filmes de Charles Chaplin. Ele sabe dosar como ninguém as emoções mais ternas com a comédia (aparentemente) mais simples.

Neste filme, em especial, há cenas de comédia maravilhosas, como a luta de boxe e a tentativa de suicídio do milionário.

Não é à toa que, quase 80 anos depois do lançamento do filme (mudo, é bom enfatizar), ele continua a emocionar e a divertir. A arte não envelhece.

Falando em Chaplin

Os meus dois atores/diretores preferidos são conhecidos como "comediantes": Charles Chaplin e Woody Allen. Embora, aparentemente, eles não tenham muito em comum, os dois têm o mérito de tratar temas cotidianos com muita sensibilidade. E de misturar drama e comédia de uma forma harmônica.

É claro que os dois podem ser opostos: alguém imagina um filme de Allen sem palavras? Chaplin era o ator das multidões, Allen é admirado por poucos. Mas considero os dois geniais, cada um a seu modo. Os dois sensíveis. Os dois percebem a tragédia e a comédia de nosso dia-a-dia, sem optar por um só.

julho 27, 2006

O mundo é grande mesmo!

O mundo é grande e eu quero conhecê-lo. Cada canto, cada esquina, cada detalhe. O mundo é azul e verde e eu quero conhecer cada folha e cada gota. O mundo é imenso e meu coração é do tamanho do mundo. Meu coração é vermelho e quero viver cada gota. Quero suar, quero acelerar, quero seguir, quero sentir. O mundo é grande e eu sou grande o suficiente para abraçar o mundo.
O mundo é grande
Carlos Drummond de Andrade

O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.

julho 13, 2006

Liberdade! Liberdade! Abre as asas sobre nós ou Libertas quae sera tamen

A liberdade já foi cantada em verso e prosa pelos mais diferentes autores. Pois tinham razão. Nada melhor do que a liberdade. Principalmente do que a liberdade de seus próprios medos e paranóias. Principalmente quando se percebe o quão bestas elas eram. Principalmente quando se é capaz de olhar para trás e rir das nossas próprias supostas desgraças.

julho 07, 2006

Insônia

Cinco e oito. O vermelho brilhante no escuro anuncia a hora sem pudor. Hora em que meninas com pudor deveriam estar sonhando, de olhos fechados e consciência distante.

O relógio anuncia que ela não tem pudor. Cinco e oito e ela ainda não dormiu.

O vermelho brilhante é o que mais a incomoda. A luz vermelha. Não poderia ser verde ou azul? Ela se sentia acuada pelo vermelho: cinco e oito.

Tentava fechar os olhos, pensava em carneirinhos pulando uma cerca. Um carneirinho pulou a cerca. O outro bateu com o pé na madeira no instante em que pulava. Coitado. O carneiro caiu de dor!

Ela abriu os olhos. Não podia ver ninguém sofrendo. Mas ali estava o vermelho assustador: cinco e nove.

Aquela luz, ao mesmo tempo discreta e voluptuosa, a incomodava.

Ela procurava paz, o silêncio de que precisava para o descanso. Mas só sentia o barulho do vermelho. Inquietante. Ensurdecedor.

junho 28, 2006

Tempos pós-modernos

Todos fugindo da solidão. Todos fugindo da convivência. Buscando o encontro, para depois procurar o desencontro. Viver e Morrer. Ir e Ficar. Ser e Ter. Amar e intransigir.

Há tempos.
Sabino

De tudo ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro.

junho 25, 2006

Vida louca vida

A vida é uma só. Feito essa gente que anda brincando com a vida. A vida é feita de altos e baixos. A vida é um hospital onde quase tudo falta. A vida é assim mesmo. A gente tem que curtir a vida. A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida. Deixa a vida me levar. Vida, minha vida, olha o que é que eu fiz. A vida só se dá para quem se deu.

Sei-lá. A vida tem sempre razão.

junho 23, 2006

Infância

Lembro pouco da minha infância. Eu era muito tímida. Falava pouco. Não era triste. Gostava de brincar. Com meus amiguinhos, mas, se eles não estivessem por perto, brincava sozinha. Tinha cabelos curtos e às vezes me confundiam com menino. Tinha covinhas engraçadas. Gostava de cantar. Gostava de ouvir conversa de adultos, embora nem sempre entendesse suas piadas.

Lendo O Encontro Marcado fiquei com vontade de lembrar.

junho 17, 2006

Gente
Caetano Veloso

Gente olha pro céu
Gente quer saber o um
Gente é o lugar de se perguntar o um
Das estrelas se perguntarem se tantas são
Cada estrela se espanta à própria explosão
Gente é muito bom
Gente deve ser o bom
Tem de se cuidar, de se respeitar o bom
Está certo dizer que estrelas estão no olhar
De alguém que o amor te elegeu pra amar
Marina, Bethânia, Dolores, Renata, Leilinha, Suzana, Dedé
Gente viva brilhando, estrelas na noite
Gente quer comer
Gente quer ser feliz
Gente quer respirar ar pelo nariz
Não, meu nego, não traia nunca essa força, não
Essa força que mora em seu coração
Gente lavando roupa, amassando pão
Gente pobre arrancando a vida com a mão
No coração da mata, gente quer prosseguir
Quer durar, quer crescer, gente quer luzir
Rodrigo, Roberto, Caetano, Moreno, Francisco, Gilberto, João
Gente é brilhar, não pra morrer de fome
Gente deste planeta do céu de anil
Gente, não entendo, gente, nada nos viu
Gente, espelho de estrelas, reflexo do esplendor
Se as estrelas são tantas, só mesmo amor
Maurício, Lucila, Gildásio, Ivonete, Agripino, Gracinha, Zezé
Gente, espelho da vida, doce mistério
Doc

Adoro documentários. Assisti-los. Produzi-los. Quero voltar.
Tolerância

A parada gay, em São Paulo, é um símbolo de tolerância. Ainda que seja superficial, ainda que seja só por um dia, ainda que seja só tolerência e não aceitação.

O Brasil, ou grande parte dele, ainda acredita na ilusão de que aqui não existe preconceito. Totalmente falso. O brasileiro pode até não ser, em sua maioria, violento fisicamente ao expressar seu preconceito. Mas verbalmente certamente o é. E também nas atitudes sem palavras. No dia-a-dia.

Contra gays, contra judeus, contra negros, contra japoneses e descendentes (este eu descobri em São Paulo). É de leve, é quase envergonhado. Mas, não dê espaço, se não quiser ouvir alguns absurdos.

fevereiro 10, 2006

Lar, doce lar

Depois de dois anos em São Paulo, me rendi. Aceitei. Resignei-me. Tão cedo não saio daqui.

Aceitar isso, no entanto, tem suas compensações. Agora posso fazer planos. Já comecei, para falar a verdade.

Hoje assinei o contrato de aluguel do meu apezinho. MEU apezinho. Pela primeira vez vou morar completamente sozinha.

Estou um pouco ansiosa e muito feliz. Tenho uma sensação de independência e liberdade, mas ao mesmo tempo de responsabilidade. Estou virando gente grande. Para o bem e para o mal.

dezembro 04, 2005

Sei lá... a vida tem sempre razão
(Toquinho/Vinícius)

Tem dias que eu fico pensando na vida
E sinceramente não vejo saída.
Como é, por exemplo, que dá pra entender:
A gente mal nasce, começa a morrer.

Depois da chegada vem sempre a partida,
Porque não há nada sem separação.
Sei lá, sei lá, a vida é uma grande ilusão.
Sei lá, sei lá, só sei que ela está com a razão.

A gente nem sabe que males se apronta.
Fazendo de conta, fingindo esquecer
Que nada renasce antes que se acabe,
E o sol que desponta tem que anoitecer.

De nada adianta ficar-se de fora.
A hora do sim é o descuido do não.
Sei lá, sei lá, só sei que é preciso paixão.
Sei lá, sei lá, a vida tem sempre razão.

novembro 21, 2005

Para quem gosta de Vinícius

Eu, que sempre amei Vinícius de Moraes, tenho hoje um estilo de vida oposto àquele que ele gostava e - por meio de sua obra - pregava.

Vai, vai, vai viver, dizia o poeta em Canto de Ossanha.

Ou ainda, em Samba da Benção:
Feito essa gente que anda por aí brincando com a vida
Cuidado companheiro! A vida é pra valer
E não se engane não, tem uma só.
Duas mesmo que é bom
Ninguém vai me dizer que tem
Sem provar muito bem provado
Com certidão passada em cartório do céu
E assinado em baixo: Deus.
E com firma reconhecida

Ele mergulhou em nove casamentos, mergulhou na poesia e na música e, depois, na reinvenção de sua poesia e música. Sem medo.

Ultimamente, minha vida tem sido muito trabalho. E para quê? para quando vai ficar a vida? para quando vão ficar os riscos?

São Paulo tem me feito mal. Estou cada vez mais me metamorfoseando em paulista. Já uso salto alto. Trabalho enlouquecida e estressantemente. Daqui a pouco serão os terninhos e a chapinha.

Não é nada disso que quero para mim. Conseguirei escapar da armadilha do hábito, do certo e do conforto? Saberei escolher o momento certo?

Depois de ver o documentário - excelente - Vinícius de Moraes essas dúvidas ficaram mais fortes em mim.

Aliás, recomendo o filme. Depoimentos maravilhosos de Chico, Edu Lobo, da filha de Vinícius. Imagens antológicas, como a de Vinícius e Tom completamente bêbados. Músicas lindas. Poemas maravilhosos muito bem declamados.

Mas, uma certeza: com mais de duas horas, é só para quem gosta de Vinícius.

novembro 09, 2005

Programação

Divulgação de Resultados - amanhã e depois

Apresentações - De segunda a quinta da semana que vem

Rio e vida - Sexta!!!

outubro 13, 2005

Top 3

Li uma seqüência de livros MUITO bons neste último mês.

Recomendo os três para quem quiser garantir momentos de deleite literário.

Em ordem de leitura:

Memórias de Minhas Putas Tristes - Gabriel Garcia Marquez
Budapeste - Chico Buarque
O Retrato de Dorian Gray - Oscar Wilde

O próximo já está na minha mesinha de cabeceira: Encontro Marcado, Fernando Sabino

setembro 18, 2005

Sol
Chega deste frio cinzento de São Paulo. Quero sol!!!!

setembro 08, 2005

Baladinhas (ou A noite alternativa em São Paulo)

Sim. Existe vida noturna fora das Vilas Olímplia (arghhh!!) e Madalena, em São Paulo. Após um ano e meio de Sampa, finalmente conheci dois lugares muito bacanas para dançar e conhecer gente interessante.

O primeiro é o Saraievo, que fica na Auguta. É uma mistura de Bukowski (antigo) com Loud (antiga). Duas pistas, um ambiente com uns sofazinhos e, antes da meia-noite, umas mesinhas de plástico do lado de fora. E, o melhor, tem cerveja de garrafa com copinho americano!

O outro lugar é mais famosinho: a trash 80's (do centro, claro!). GLS, uma galera divertida e umas músicas muito, muito, muito trash! Versões de músicas americanas (como uma virgem, tocada pela primeira vez), música sertaneja, música brega, músicas da infância (Trem da Alegria, Xuxa, Mara, Balão Mágico...): tudo dos anos 80! É para ir de mente aberta, para rir bastante.

Por enquanto, esses são dos lugares que fui. Me diverti horrores!!! Conheci gente legal... Agora, é catar novos lugares, de preferência bem distantes das vilas.

setembro 06, 2005

Top 5

Depois de uma acirrada discussão, as 5 melhores músicas dei-a-volta-por-cima-depois-do-fim-de-um-relacionamento:

Vou Festejar - Jorge Aragão
Olhos nos Olhos - Chico Buarque
I will Survive - Gloria Gaynor
Meu Guarda-Chuva - Jorge Ben Jor
Volta por Cima - Noite Ilustrada

julho 30, 2005

De volta...*

Após alguns meses, deu vontade de escrever aqui novamente. Muitas mudanças, a começar pelo apartamento.

Estou morando em plena Avenida Paulista, a mais conhecida e, sem dúvida, a melhor avenida de São Paulo.

A Paulista é a cara do que há de melhor na cidade. É planejada, grande, prédios imponentes. Há muito espaço para lazer, cultura, passeios, sacanagens.

A avenida e as ruas próximas são repletas de botecos. Mas há também ótimos restaurantes: dos mais chiques aos mais chulés. Nesse sentido, me lembra muito Copacabana, talvez por isso tenha escolhido morar lá.

São 17 cinemas ao todo, desde os "cult", nas recém inauguradas salas do prédio da Gazeta, no Bristol e no Top Center, até o cinemão do Center 3.

Há livrarias, museus, centros culturais, teatros. Sem falar de programas menos cabeça, como passear no Trianon (por que não?) e pela feirinha de antiguidades do Masp aos domingos.

Com certeza, não mencionei nem metade das coisas que têm na Paulista.E preferi não falar de seus problemas. Não hoje, estou de muito bom humor para isso.

Ficam para a próxima também as mudanças da minha vida. A Paulista é mais interessante.


*Por quanto tempo?

março 08, 2005

Estacao das Chuvas

Em meio a chuva que caia sobre Jerusalem, neste dia oito, ouviam-se Tom e Elis festejando as Aguas do Marco, no cafe Hilel.
Mulheres pela paz

Uma noite fria e agradavel em Jerusalem. Dia internacional das mulheres. Meu quinto dia na cidade, meu primeiro passeio sozinha. Decidi ir a Cinemateca, um dos pontos da cidade frequentado pelos que, no Brasil, seriam chamados de alternativos. Nao poderia ter feito escolha melhor.

Fui pega totalmente de surpresa por uma programacao voltada para o Dia. Assisti a um excelente documentario sobre mulheres que trabalham pela paz em quatro paises: Afeganistao, Burundi, Bosnia e Argentina. Mulheres que superam dificuldades para fazer o que consideram certo.

O nome do filme: Peace by Peace (mais informacoes no site http://peacexpeace.org). A diretora estava presente. Alem dela, seis mulheres que, de alguma forma, trabalham pela paz entre israelenses e palestinos formaram uma mesa de debates.

Foi interessante ouvir estas mulheres, na maioria de grupos de esquerda, em Israel. Duas delas eram palestinas. Tive a sensacao de que eh possivel fugir dos extremismos, nesta regiao de extremismos, e conviver bem com a diversidade que caracteriza o pais. Aquelas mulheres estavam ali com um objetivo comum, independentemente de suas origens, a paz.

Foi uma noite agradavel, apesar da chuva fria que peguei na saida.

(Foto pessima da palestra: http://nirab.fotos.uol.com.br/jerusalem1/photo.html?currentPage=9)

fevereiro 12, 2005

Rumos

Até que ponto podemos escolher nossos caminhos? Quanto do que somos e temos é uma escolha nossa?

Eu sempre fui do tipo "deixa a vida me levar". Não fazia muitos planos e ia escolhendo as opções que a vida me proporcionava. Dificilmente, eu fazia estas "opções". Elas simplesmente apareciam. As escolhas nunca foram muito difíceis ou totalmente decisivas.

Vestibular? Tudo bem... Se não gostasse da faculdade, podia mudar. Como fiz.

Este ou aquele emprego? Escolhia um. se não desse certo, meu pai me dava uma força. Como deu.

Ir ou não para São Paulo? Uma mudança não faria nada mal. Se fizesse, a casa dos meus pais estaria a minha espera. Como está.

Embora não tenha precisado - estou em Sampa e, por enquanto, não penso em voltar - tenho um porto seguro.

Mas, e quando a escolha é definitiva? E quando não tem volta? O que fazer?