janeiro 27, 2004

Desde que o samba é samba é assim
Sim, eu estou tão cansada.
Triste é viver na solidão.
Tristeza não tem fim, felicidade sim.

Há tempos não vou ao cinema.
Há tempos não leio um bom livro.
Há tempos não vivo.

Bandeira estava certo:

Desesperança
Esta manhã tem a tristeza de um crepúsculo.
Como dói um pesar em cada pensamento!
Ah, que penosa lassidão em cada músculo. . .

O silêncio é tão largo, é tão longo, é tão lento
Que dá medo... O ar, parado, incomoda, angustia...
Dir-se-ia que anda no ar um mau pressentimento.

Assim deverá ser a natureza um dia,
Quando a vida acabar e, astro apagado,
Rodar sobre si mesma estéril e vazia.

O demônio sutil das neuroses enterra
A sua agulha de aço em meu crânio doído.
Ouço a morte chamar-me e esse apelo me aterra...

Minha respiração se faz como um gemido.
Já não entendo a vida, e se mais a aprofundo,
Mais a descompreendo e não lhe acho sentido.

Por onde alongue o meu olhar de moribundo,
Tudo a meus olhos toma um doloroso aspeto:
E erro assim repelido e estrangeiro no mundo.

Vejo nele a feição fria de um desafeto.
Temo a monotonia e apreendo a mudança.
Sinto que a minha vida é sem fim, sem objeto...

- Ah, como dói viver quando falta a esperança!
Cinco
Começou a contagem regressiva.

dezembro 30, 2003

Fecha!
A bolsa nunca demorou tanto para fechar quanto hoje.
Não tem quase ninguém mais aqui e tudo que preciso é do Ibovespa de 30 de dezembro de 2003. Nestas horas queria adivinhar o futuro. Normalmente, não.
Alguma coisa acontece no meu coração

Desta vez não tenho dúvidas: o ano que vem vai ser muito diferente do que 2003. Melhor ou pior, não vai ser igual. Isto nunca esteve tão claro para mim em um Reveillon algum. Talvez quando passei no vestibular... Não. Naquela época eu era outra pessoa, não pensava nessas coisas.

Vou para uma cidade cinza e tenho medo de me acinzentar ainda mais. O azul do Rio me ajuda. Ao contrário do que dizem - que não se dá valor ao que se tem -, adoro o Rio. Talvez até demais.

Gosto das praias, de saber que a cidade não é tão grande assim: posso ir aonde quiser com facilidade. As pessoas são tão tranqüilas no Rio. Não posso negar que me identifico com esta calmaria. Sem falar em amigos, família...

Gosto de tanta coisa que não vou enumerar aqui. Acho que estou meio deprê com este clima de ano novo. Sempre fico.

dezembro 16, 2003

News

Ok, desta vez exagerei. Para falar a verdade, até eu pensei que tinha desistido. Mas não. Cá estou eu de volta.

E com algumas novidades.

A primeira. Depois de alguns meses sem férias e trabalhando horrores, não fui para a labuta na semana passada. Pensas que tive férias? Bem, mais ou menos. Aqui entra a segunda novidade.

A segunda. Usei estes dias para fazer a minha monografia. Pois é. Depois de dois anos de enrolação, finalmente pretendo me formar.

Tomei uma dose fortíssima de Getúlio Vargas. É que o ditador é o tema do meu trabalho. "Getúlio Vargas: Da Morte ao Mito". Hehehe, meio ridículo, né?

O fato é que eu gostei de escrever e pesquisar sobre este assunto. Não consigo fugir da história. É a minha paixão. Desde pequena sempre gostei de estudar o passado, não sei bem por quê.

E para quem não sabe, estou me formando em jornalismo. Usei como base da minha monografia o jornal "Diário Carioca", de agosto de 1954.

É muito maneiro. Depois, vou postar aqui alguns trechos do jornal, pedindo a renúncia de Vargas.

Recomendo o site do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas, para quem gosta do tema. Há milhares de fotos no arquivo. E o que é melhor, disponíveis na internet.

Se descobrir como faz, depois coloco alguma aqui. Vale a visita.

agosto 18, 2003

Hum....
Nossa, há tanto tempo (de novo) que não escrevo aqui que acho que nem sei mais como fazer. Agora só escrevo sobre economia. É Bovespa para lá, dólar para cá. Descobri siglas que achava que nunca saberia o que significam. Ptax, IBX, IEE até Ebitda! Tem noção?

Mas chega disso, porque basta o trabalho. De repente poderia falar sobre o novo filme do Woody Allen, que foi muito criticado, mas eu gostei. Aliás, difícil para mim não gostar de alguma coisa dele. Tudo bem, não é uma Rosa Púrpura do Cairo (está longe, aliás). Gostei mais de Trapasseiros. Mas Dirigindo no Escuro também é muito engraçado e está bem acima da média das comédias que tenho visto.

Poderia falar sobre isso, mas acho que não tenho muito a acrescentar.

E, falando em comédia, vi uma (dramática) no Telecine muito boa. Creia, há vida inteligente no Telecine. É raro, mas há. É um filme com o Robert de Niro e o Jerry Lewis chamado "O Rei da Comédia". Excelente. Imperdível a cena em que a atriz principal (não sei o nome) "seduz" o Jerry Lewis amordaçado.

Mas não quero falar sobre isso também não...

julho 09, 2003

Tanto tempo...
Tanto tempo que eu não escrevia neste blog que nem tinha visto as mudanças de que todos reclamaram. Ainda não vi o resutado, mas já estou imaginando todos os meus acentos tranformados em símbolos ininteligíveis. A vida é esta. Depois começo uma caçada em busca da melhor forma de manter meus acentos em dia.

Tanto tempo que não escrevia neste blog que não sobrou nenhum leitor. Nos meus muito bem escondidos dados estatísticos (nunca divulgarei o que eles dizem), o número de visitas está reduzido a quase zero.

Tanto tempo para cativar leitores (até parece!) e tão pouco tempo para perdê-los. Mas tudo bem. Quem precisa deles. Eu me basto a mim mesma. E ponto final.

Tanto tempo sem escrever e eu agora paro para escrever tanta bobagem!

Deus (que não existe, né Cesar?)! Tanto tempo, para quê?

junho 18, 2003

Desculpe
Não tinha uma gripe há muito tempo. Tanto, que nem entendi quando ela chegou. Fui trabalhar na segunda e fiquei com aquela moleza e dor de cabeça típicas. Conclusão: fui mandada de volta para casa.

Isso é para dizer que não fui para a labuta na terça. E sabe do pior? Mesmo de cama, com febre e toda entupida, me senti culpada por não ter ido trabalhar!! Tem noção?

Ultimamente, tenho sentido culpa pelas coisas mais bobas, mas essa foi terrível. Afinal, mesmo que eu quisesse, não coseguiria apurar nem escrever matérias. Esse negócio de culpa é mesmo uma merda, diz uma amiga minha. Pois é. Para você ver, ninguém precisa de religião para sentir uma boa culpazinha.

Quer um pouquinho?

maio 25, 2003

Creia
Alguém chegou a este blog procurando pelas seguintes palavras no google: filmes pornos pra min ver agora.

Sem comentários...

maio 24, 2003

Polyana
Economia tem fama de ser assunto chato. Para ser sincera, eu também tinha um pouco de desconfiança, mas estou chegando a uma conclusão diferente: aprender é sempre interessante.

Não que eu entenda de economia. Daqui a pouco - espero que não - posso começar a achar tudo um saco. Entretanto, o fato é que estou gostando de trabalhar em um site de economia. E o melhor é justamente estar começando (começando meeeesmo!!!) a entender um assunto sobre o qual eu não sabia quase nada.

maio 18, 2003

Freire no cinema
Falando em cinema, assisti recentemente a Nelson Freire, o último documentário de João Moreira Salles. Trata-se de outro filme que vale a pena ver. Mas é bom avisar, é um programa para quem gosta de música. O pianista-protagonista é muito tímido e, para compensar as poucas falas, Moreira Salles se concentrou nos concertos belíssimos de Freire.

É claro que há mais, além da música. Há momentos de modéstia (nada falsa) explícita, de emoção e até cenas engraçadas.

É também uma oportunidade de conhecer o maior pianista brasileiro vivo. No Brasil, onde a música clássica é tão desvalorizada, o documentário é uma forma de mostrar ao grande público o que ele está perdendo ao se afastar das salas de concerto. Além de ser uma justa homenagem a Nelson Freire.
P. T. Anderson + Adam Sandler
Deveria ser inconfessável, mas confesso: gosto do Adam Sandler. Para quem não sabe, é um ator/humorista americano, que faz filmes besteirol como O Paizão.

O primeiro filme dele que assisti (e até anteontem, o único) foi O cantor de casamento, uma comédia romântica bonitinha, que se passa nos distantes e estranhos anos 80. Fora isso, só o conhecia pelo Saturday Night Live.

Sandler tem cara e jeito de menino desprotegido, daqueles que a gente quer pegar no colo e consolar o tempo todo.

Se aproveitando deste jeitinho, o ator resolveu fazer um filme de gente grande. Trata-se de Embriagado de Amor, que entrou em cartaz nesta sexta-feira. A direção é de Paul Thomas Anderson, o mesmo de Boogie Nights e Magnólia.

No filme, Sandler interpreta um sujeito esquisitão que não consegue fazer nada direito. Não se trata de um personagem caricato de comédia pastelão, mas de um homem reprimido, ingênuo, que quer fazer as coisas certas, mas nunca sabe como. E que está sempre à beira de um ataque de nervos. Até que...

Vale a pena conferir. Mesmo se você não gosta de Adam Sandler. Afinal, até Jim Carrey conseguiu fazer bons filmes.

maio 15, 2003

Você votaria em um ateu?
Salman Rushdie é o escritor que ficou famoso depois de ser condenado à morte pelo governo muçulmano radical do Irã. Tudo porque escreveu um livro, Versos Satânicos, considerado uma blasfêmia contra o islamismo.

Rushdie, que vem ao Brasil para a Bienal, concedeu uma entrevista à Veja, publicada esta semana nas páginas amarelas. A entrevista está muito interessante. Chamou a minha atenção a opinião do escritor sobre religião.

Ele colocou uma questão sobre a qual não tinha pensado ainda. O preconceito contra quem não acredita em Deus. Afinal, por que não acreditar Nele torna alguém pior ou melhor?

Aí está um trecho do depoimento de Rushdie:

Na última eleição presidencial americana, um grande jornal realizou uma pesquisa perguntando em quais candidatos das chamadas minorias os eleitores aceitariam votar. As pessoas, em geral, disseram que não se oporiam a candidatos negros, a mulheres ou a homossexuais. Quando perguntaram se votariam num ateu, contudo, a situação mudou: mais de 50% disseram que não. Você é inelegível se duvidar da existência de Deus.

maio 07, 2003

Relatos de Pax
Lembra-se de Where is Raed?? É o blog que chamou a atenção no início da guerra por ser escrito em inglês, por um iraquiano que vive em sua terra natal.

O blog não era atualizado desde 24 de março, assustando muita gente. Estaria Salam Pax, autor do blog, ferido ou morto?

Se esta preocupação era sua também, pode ficar tranqüilo, ele está bem. O blog foi atualizado hoje (na verdade, Salam Pax conseguiu que alguém postasse, pois os sistemas de comunicação do Iraque ainda não estão normalizados), com relatos escritos durante o conflito.

Vale a pena ler. Mesmo se esta for apenas mais uma ficção internáutica. Quem sabe?

maio 06, 2003

Imperdível!
Está em cima da hora, mas não custa avisar.

Hoje, às 21h, tem concerto do Quarteto Bessler no Ibam.

O concerto é gratuito. O Ibam fica no Humaitá.

maio 03, 2003

Cabeleira
Desisto. Nos próximos dez anos, não corto o cabelo.

O Carlos, meu ex-cabelereiro, não estava acertando nas últimas vezes. Resolvi arriscar o da Cristina, afinal, o cabelo dela está lindo. Acho que o problema é comigo.

Bastou sair do salão, esperando o elevador, uma senhora me abordou:


-Você vê Mulheres Apaixonadas?

-Não.

-Você parece a Paulinha, da novela.

-Não sei quem é
, ri, sem graça.

-Não se preocupe, ela é bonita, sorriu a velhinha.

Algo me diz que devo me preocupar.

Não sei se pareço a tal Paulinha, mas estou desesperada!! Meu cabelo está parecendo com o da Rosinha Garotinho (Blerg! Blerg! Blerg!)!!!!!!! Pelo menos acho que está. Meu irmão e minha mãe garantem que é só imaginação fértil, porém não consigo deixar de sentir uma certa repulsa cada vez que me olho no espelho!!!!

Ainda bem que tenho minhas faixas a postos.

abril 27, 2003

Acabou!!
Atenção: risco para mulheres grávidas. Causa graves defeitos na face, nas orelhas, no coração e no sistema nervoso do feto.

Isto está escrito em letras garrafais na caixa do remédio que tomei nos últimos seis meses. Assustador, não? Mas não é só:

- Tive que assinar um termo prometendo não engravidar
- Não pude usar lentes de contato
- Meus lábios ficavam ressecados e rachados fizesse frio ou calor
- Eu tinha que fazer exame de sangue uma vez por mês
- E o pior: fui proibida de beber!!

Cumpri todas estas exigências, com exceção de uma. Não consegui me abster totalmente do álcool, apesar de ter diminuido bastante a quantidade. Não que eu seja alcóolatra, mas nem uma cervejinha de vez em quando?!

Se você esteve comigo nos últimos meses, não precisa se desesperar. Não tive nenhuma doença grave e supercontagiosa. Tudo isso foi para me livrar daquelas bolinhas vermelhas insuportáveis que insistiam em brotar no meu rosto desde que eu tinha uns 12 anos.

Aparentemente, o sacrifício valeu a pena. As espinhas sumiram, pelo menos por enquanto. Redescobri algumas alegrias, como usar lentes, por exemplo. Anteontem, saí sem óculos pela primeira vez em muito tempo. Nossa, como eu fico bem sem aquela tralha!!

Agora, pretendo retomar a minha vida boêmia. E torço para as bolinhas não voltarem. Se voltarem, sinto muito. Não tomo Roacutan nunca mais!!!

abril 25, 2003

Incompreensão
Foi a Cristina quem me avisou do artigo do Veríssimo em que ele reclamava por ter sido acusado de anti-semita. Li o texto hoje. Não sei quem nem por que fizeram a acusação, mas certamente cometeram uma injustiça.

Acredito que tenha sido por conta do artigo que citei no último post. Veríssimo escreveu um elogio à tolerância, mas fez críticas à política de Sharon. Ora bolas, se isso fosse anti-semitismo, eu seria anti-semita (para quem não sabe, sou judia), assim como toda a oposição israelense.

O caso me lembra o texto totalmente irônico, do mesmo Veríssimo, sobre o Lula e o Romanée-Conti, publicado no Globo, no ano passado. Dezenas de pessoas não perceberam que se tratava de uma ironia e escreveram ao jornal criticando o colunista, quando, na verdade, concordavam com ele.

O fato é que muita gente tem dificuldade para entender o que lê.

Vi dois outros exemplos disso esta semana. Zuenir Ventura (que, por acaso, é judeu) escreveu no No Mínimo que foi acusado de preconceituoso por escrever ironias sobre bahianos. Fez uma coluna inteira explicando que gosta da Bahia e dos bahianos e que, por exemplo, adora piada de judeus, desde que não agressivas.

Arthur Dapieve também escreveu em sua coluna hoje, no Globo, que já foi chamado de fascista a comunista por leitores que mal-interpretaram seus textos.

Na minha opinião, os três colunistas - Veríssimo, Zuenir e Dapieve - são exemplos de tolerência. Ainda assim, são chamados de preconceituosos. Difícil entender.

abril 15, 2003

Inteligência americana
Luis Fernando Veríssimo escreveu no penúltimo domingo, em sua coluna no Globo, que "faz tão pouco sentido ser antiamericano quanto ser anti-semita". Ou seja, os americanos não são todos iguais e uma generalização como "não gostar de americanos" é puro preconceito.

Melhor exemplo disso - se é que precisamos de exemplo - é Michael Moore. O cara é americano e é pacifista e é contra a política de Bush. Algumas de suas idéias estão neste artigo traduzido pelo Globo.

Para quem não sabe, Moore é o diretor de Tiros em Columbine, eleito, merecidamente, o melhor documentário no Oscar deste ano.

O filme disseca as causas da excessiva violência da sociedade norte-americana. O título vem do massacre que dois adolescentes promoveram na Columbine High School, atirando em colegas e professores, e depois se matando. O documentário não se limita a este episódio, mas ele é usado como exemplo da carga de violência dos EUA. Em inglês, o filme se chama "Jogando boliche por Columbine". Micheal Moore explica por quê.

Depois do massacre em Columbine, os experts começaram a dizer que as causas seriam as mesmas sempre levantadas quando acontece um episódio parecido: rocks malígnos (no caso, Marilyn Manson), video games violentos e pais omissos. Meu ponto de vista é que isso faz tão pouco sentido quanto culpar o boliche. Afinal, Eric e Dylan jogavam boliche. Seria esta a causa de seus terríveis atos? Se eles jogaram boliche de manhã, o jogo não atiçou sua vontade de cometer assassinatos em massa? Se não jogaram, será que isso não alterou seu humor e os levou ao massacre? Enfim, nada disso faz sentido, como também não faz sentido culpar Marilyn Manson.

No filme, Moore mostra que as causas vão muito além das explicações de sempre. Uma comparação com o Canadá - que tem tantas armas quanto os EUA, mas muito menos crimes - é a chave para entender a fonte da violência no país: o medo. Medo dos negros, medo do comunismo, medo do terrorismo. Medo que, muitas vezes, tem pouca base na realidade, mas que as autoridades procuram incutir nos norte-americanos.

Difícil esquecer o discurso de Moore quando ganhou o Oscar:

Gostamos de não-ficção porque vivemos em tempos fictícios. Vivemos num tempo no qual os resultados fictícios de uma eleição nos deram um presidente fictício. Estamos agora fazendo uma guerra por motivos fictícios. Mesmo que seja a ficção das fitas adesivas (para selar janelas) ou os ‘alertas laranjas’ fictícios, somos contra essa guerra, senhor Bush. Tenha vergonha, senhor Bush, tenha vergonha.

Sim, Micheal Moore é americano. E, sim, fez este discurso nos Estados Unidos.

P.S. Não deixe de ler o artigo que ele escreveu sobre as repercussões do discurso.

abril 06, 2003

Saddam e eu
Tinha 18 anos quando vi Saddam pela primeira e última vez. Estava na sala de meu apartamento e, de repente, ouvi rugidos e gritos desesperados. Era o início do massacre.

Curiosa, corri até a varanda, seguida pelo meu irmão. Lá embaixo, uma menina desconcertada corria pela rua e tentava subir em uma caminhonete estacionada. Sangue jorrava pelo chão. O monstro não diferenciava homens, crianças ou mulheres. Atacava a todos que se aproximavam.

Um carro passou então pela rua pouco movimentada do Bairro Peixoto. O motorista parou e abriu a janela, numa tentativa de ajudar. Logo se arrependeu. Saddam se esqueceu da menina e tentou agarrar o motorista, que fechou a janela a tempo de evitar uma tragédia.

De um dos apartamentos do prédio em frente, alguém gritou:

-Atropela! Mata!

Outro morador respondeu, berrando:

-Que absurdo! É um só um cachorro!

Com aquela confusão, eu e meu irmão levamos um susto quando a campainha tocou. Era a vizinha do segundo andar, com o filho no colo.

-Estou com medo, sozinha em casa. Posso ficar aqui?

-Claro!
, respondemos a caminho da varanda.

-Vocês viram o nome do cão? É Satã!! Só podia dar nisso mesmo! Sangue de Jesus tem poder!!! Sangue de Jesus tem poder!!!

Soubemos mais tarde, pelo Jornal Nacional, que o Pit Bull se chamava Saddam. Descobrimos também que o Chico, porteiro gente boa do nosso prédio, tinha segurado as pernas do cachorro através das grades edifício, permitindo que a menina em cima da caminhonete fugisse.

Chico deu uma entrevista de 10 segundos para o JN e virou o herói da rua.

Saddam ainda hoje é lembrado, no programa Casseta e Planeta, como o cachorro de Maçaranduba. Dizem até que o presidente do Iraque recebeu seu nome em homenagem ao Pit Bull do Bairro Peixoto.

Jamais será esquecido.