outubro 18, 2011
Conto
Eu tenho um conto escrito numa manhã de sol.
E tenho um conto escrito numa tarde de chuva.
O conto da manhã de sol é igual ao da tarde de chuva.
outubro 09, 2011
Desnuvem
Às 20h31min cheguei do trabalho. Às oito horas e trinta e dois minutos e sete segundos, um gesto dele mudou a história daquele instante. Se, antes, o orgulho ainda armadurava meus órgãos frágeis, passado aquele gesto, o empafioma quase crônico foi curado. Numa fração de tempo anterior ao gesto, o pesado som do cinza ainda penetrava pelas paredes rígidas da casa. Mas, no momento seguinte, a vida passava a ser um petit gateau com recheio quente de chocolate e sorvete de pistache.
Às 20h31min cheguei do trabalho. Abri a porta, vi as mãos dele grandes e protetoras. O iminente contato era um pensamento distante, pois eu ainda carregava a tempestade, a mochila pesada dos compromissos, os sapatos de peixe apodrecido, as fagulhas da pressa, as partículas de pólvora. Às oito horas e trinta e dois minutos e sete segundos, relâmpagamente, ele me transformaria.
Às 20h31min cheguei do trabalho. Abri a porta. Ele ouvia Chopin. Com um sorriso, dizia, “escuta!, um noturno de Chopin jamais poderia ser às dez da manhã”. Mas eu ainda levava comigo a dureza das buzinas, dos freios dos coletivos, dos raios de sol, das árvores ressecadas. Às oito horas e trinta e dois minutos e sete segundos, um semitom suavizaria a melodia.
Às 20h31min cheguei do trabalho. Os olhos dele eram Chaplin, espelhos d’água que refletiam cubos de açúcar e café quentinho. Mas eu ainda mantinha unhas pintadas, tailleur bem cortado, meias grudadas, chapinha e pés de agulha. Às oito horas e trinta e dois minutos e sete segundos, um frame daria início a um novo filme.
Às 20h31min cheguei do trabalho. Ele era gramado verde, suor, pós-chuva, lírio, maresia, chiclete de tutti-frutti, bebê, feijoada, manjericão, livro novo. Mas eu ainda guardava em mim, por um último instante, pedras pesadas, carro velho, motor a diesel, gás carbônico, querosene.
Aí, ele se aproximou, com toda a almofadidade de suas mãos, o laguismo de seus olhos, a casebridade de sua música, seu cheiro de homem e seu sabor. E, com um único gesto dele, morreu tudo o que era desalmofada, deslagoa, anticasa, desomem, insosso.
Às oito horas e trinta e dois minutos e sete segundos, na noite de São Paulo, o beijo dele foi desnuvem.
*Texto-exercício para o curso de Escrita Criativa, da Casa do Saber, com a prof. Noemi Jaffe. Os neologismos foram criações coletivas, inclusive a desnuvem.
junho 20, 2011
Uma viagem ao centro da Terra
Muitos vão me criticar quando souberem o tema deste texto e sua relação com o título. Não, o assunto não é Júlio Verne. É Europa. Por anos li textos na faculdade que criticavam o “eurocentrismo” – esta mania de achar que a Europa é o centro do mundo. Pois nas últimas semanas decidi embarcar nesta fantasia. E foi uma delícia.
Para começar, passei as últimas três semanas entre Itália e Grécia, justamente as regiões popularmente conhecidas como berços da “civilização judaico-cristã ocidental” (como diria Agamenon, o casseta, não o grego).
Por coincidência, durante a viagem, caiu em minhas mãos um livrinho maravilhoso, chamado “Uma breve história do mundo”. O autor é E. H. Gombrich, aquele mesmo de “A História da Arte”. Aliás, foi por causa do autor que comprei o livro. Estava no Palácio Pitti, em Florença, na lojinha sempre presente ao final dos museus europeus, e dei de cara com o título em inglês. Em minha ignorância, fiquei curiosa para saber o que mais (Sir) Gombrich havia escrito na vida (bem, o prefácio do livro deixou bem clara minha ignorância).
Gombrich escreveu a obra nos anos 30, aos 26 anos, em seis semanas! Na época, havia terminado o doutorado, estava desempregado e um amigo solicitou-lhe a tradução de um livro infantil sobre a história do mundo. Ele leu e disse ao amigo que poderia escrever algo melhor. Não tenho dúvidas de que o fez. Foi seu primeiro livro.
“Uma breve história do mundo” é uma obra para crianças (ou infanto-juvenil), mas talvez por isso mesmo seja tão boa. É um livro despretensioso e apaixonado, perfeito para o clima das férias. E, de forma alguma, Gombrich trata seu leitor com excessiva superficialidade ou maniqueísmo. Ao contrário, seu objetivo é despertar no leitor o desejo de aprofundamento em cada uma das histórias narradas.
E o que isso tem a ver com a viagem ao centro da Terra? Bem, se considerássemos o livro como referência, 75% da história do mundo teria se passado na Europa. O restante poderia ser dividido, em ordem de importância, entre Oriente Médio, China, Estados Unidos, Índia, América espanhola, Japão e outros (portugueses têm uma breve menção e o Brasil, nenhuma).
Mas eu estava na Europa, no berço da civilização – Gombrich dedica boa parte do livro a Grécia e Roma – navegando no mundo eurocêntrico. E realmente, para mim, parecia que estava no centro do mundo. Todas aquelas camadas arqueológicas e artísticas, uma sobre a outra, uma ao lado da outra, na rua, nos museus, nos hotéis, nos restaurantes, nos palácios. Os espaços públicos magistralmente ocupados. Os deslocamentos fáceis. A beleza das ruas.
Optei pelo encantamento, tanto nos passeios quanto na leitura.
Muitos vão me criticar quando souberem o tema deste texto e sua relação com o título. Não, o assunto não é Júlio Verne. É Europa. Por anos li textos na faculdade que criticavam o “eurocentrismo” – esta mania de achar que a Europa é o centro do mundo. Pois nas últimas semanas decidi embarcar nesta fantasia. E foi uma delícia.
Para começar, passei as últimas três semanas entre Itália e Grécia, justamente as regiões popularmente conhecidas como berços da “civilização judaico-cristã ocidental” (como diria Agamenon, o casseta, não o grego).
Por coincidência, durante a viagem, caiu em minhas mãos um livrinho maravilhoso, chamado “Uma breve história do mundo”. O autor é E. H. Gombrich, aquele mesmo de “A História da Arte”. Aliás, foi por causa do autor que comprei o livro. Estava no Palácio Pitti, em Florença, na lojinha sempre presente ao final dos museus europeus, e dei de cara com o título em inglês. Em minha ignorância, fiquei curiosa para saber o que mais (Sir) Gombrich havia escrito na vida (bem, o prefácio do livro deixou bem clara minha ignorância).
Gombrich escreveu a obra nos anos 30, aos 26 anos, em seis semanas! Na época, havia terminado o doutorado, estava desempregado e um amigo solicitou-lhe a tradução de um livro infantil sobre a história do mundo. Ele leu e disse ao amigo que poderia escrever algo melhor. Não tenho dúvidas de que o fez. Foi seu primeiro livro.
“Uma breve história do mundo” é uma obra para crianças (ou infanto-juvenil), mas talvez por isso mesmo seja tão boa. É um livro despretensioso e apaixonado, perfeito para o clima das férias. E, de forma alguma, Gombrich trata seu leitor com excessiva superficialidade ou maniqueísmo. Ao contrário, seu objetivo é despertar no leitor o desejo de aprofundamento em cada uma das histórias narradas.
E o que isso tem a ver com a viagem ao centro da Terra? Bem, se considerássemos o livro como referência, 75% da história do mundo teria se passado na Europa. O restante poderia ser dividido, em ordem de importância, entre Oriente Médio, China, Estados Unidos, Índia, América espanhola, Japão e outros (portugueses têm uma breve menção e o Brasil, nenhuma).
Mas eu estava na Europa, no berço da civilização – Gombrich dedica boa parte do livro a Grécia e Roma – navegando no mundo eurocêntrico. E realmente, para mim, parecia que estava no centro do mundo. Todas aquelas camadas arqueológicas e artísticas, uma sobre a outra, uma ao lado da outra, na rua, nos museus, nos hotéis, nos restaurantes, nos palácios. Os espaços públicos magistralmente ocupados. Os deslocamentos fáceis. A beleza das ruas.
Optei pelo encantamento, tanto nos passeios quanto na leitura.
maio 03, 2010
Livro Imperdível
Li na faculdade, mas sempre vale ao menos uma rápida visita.
"No plano ideológico pelo menos, tentamos combinar aquilo que nos parece ser o melhor (...): queremos igualdade sem que ela acarrete a identidade; mas também a diferença, sem que ela degenere em superioridade/inferioridade; esperamos colher os benefícios do modelo igualitarista e do modelo hierárquico; aspiramos à recuperação do sentido social, sem perder a qualidade do individual" - Tzvetan Todorov (A Conquista da América)
Li na faculdade, mas sempre vale ao menos uma rápida visita.
"No plano ideológico pelo menos, tentamos combinar aquilo que nos parece ser o melhor (...): queremos igualdade sem que ela acarrete a identidade; mas também a diferença, sem que ela degenere em superioridade/inferioridade; esperamos colher os benefícios do modelo igualitarista e do modelo hierárquico; aspiramos à recuperação do sentido social, sem perder a qualidade do individual" - Tzvetan Todorov (A Conquista da América)
maio 01, 2010
Filha da História
Filha do conturbado século XX. Filha das imigrações forçadas, das grandes guerras.
Bisavó egípcia. Avô alemão. Avó amazonense. Mãe israelense. Pai carioca. A história não poupa ninguém.
Bisavó egípcia. Avô alemão. Avó amazonense. Mãe israelense. Pai carioca. A história não poupa ninguém.
outubro 19, 2009
Noturno
Triste como a quase pureza da alvorada, que consome a névoa e dilui e seca o orvalho. Traz a dura luz do dia, esquece a poesia, ouve os carros, inala o gás carbônico, come o enlatado. É sol do meio-dia. Derrete os miolos. Produz suor, exala o sebo.
A noite é poética. A lua. As estrelas escondidas.
Um noturno de Chopin nunca seria às 10 horas da manhã.
agosto 09, 2009
Múltiplos Interesses
Meus múltiplos interesses me incomodam. Não é possível que quase tudo possa ser interessante. Dave haver um único grande assunto, que desperte a minha paixão.
Adoro documentários! Mas também gosto de outras formas de cinema. Filmes me fascinam. Por outro lado, adoraria conhecer mais a história da arte e a arte contemporânea. Queria saber mais sobre música, especialmente jazz e música clássica.
São tantos filósofos e eu não li praticamente nada sobre o assunto. Um livrinho aqui, outro ali. Nada que me permitisse entender o pensamento filosófico com profundidade. O mesmo vale para história. Literatura é outro tema que me fascina. Quero ler os clássicos. Todos! Mas estou muito, muito, muito longe disso. Mesmo porque sempre acabo lendo outros livros, bem distantes dos cânones.
Outro tema que me atrai é psicanálise. Descontando o fato de eu frequentar o consultório de um analista toda semana, entendo pouco do assunto. Queria também fazer um curso de fotografia.
Até mesmo bancos, contabilidade, mercado financeiro, análise de balanços são temas capazes de prender minha atenção. Fui capaz de fazer um MBA sobre isso. Trabalho com isso. Aliás, no trabalho, um assunto que tem me chamado a atenção é macroeconomia. Outro de que sei pouco e acho que deveria saber mais.
Dia desses, me peguei lendo um livro sobre Einstein. Queria tentar entender um pouco da Relatividade. Confesso que aí acho que fui um pouco longe demais. Alguns temas simplesmente são demais para minha cabeça. Mas acho que deveria estudar um pouco mais de matemática e estatística, de qualquer forma.
Mas, quando penso nestas coisas, tento lembrar: Nira, você precisa se concentrar em um assunto. Senão, sabe sempre um pouco de tudo, mas não sabe nada realmente, com profundidade. Sou uma generalista. Queria entender algum assunto profundamente. Mas qual? Como escolher, diante de um mundo tão vasto e interessante?
Meus múltiplos interesses me incomodam. Não é possível que quase tudo possa ser interessante. Dave haver um único grande assunto, que desperte a minha paixão.
Adoro documentários! Mas também gosto de outras formas de cinema. Filmes me fascinam. Por outro lado, adoraria conhecer mais a história da arte e a arte contemporânea. Queria saber mais sobre música, especialmente jazz e música clássica.
São tantos filósofos e eu não li praticamente nada sobre o assunto. Um livrinho aqui, outro ali. Nada que me permitisse entender o pensamento filosófico com profundidade. O mesmo vale para história. Literatura é outro tema que me fascina. Quero ler os clássicos. Todos! Mas estou muito, muito, muito longe disso. Mesmo porque sempre acabo lendo outros livros, bem distantes dos cânones.
Outro tema que me atrai é psicanálise. Descontando o fato de eu frequentar o consultório de um analista toda semana, entendo pouco do assunto. Queria também fazer um curso de fotografia.
Até mesmo bancos, contabilidade, mercado financeiro, análise de balanços são temas capazes de prender minha atenção. Fui capaz de fazer um MBA sobre isso. Trabalho com isso. Aliás, no trabalho, um assunto que tem me chamado a atenção é macroeconomia. Outro de que sei pouco e acho que deveria saber mais.
Dia desses, me peguei lendo um livro sobre Einstein. Queria tentar entender um pouco da Relatividade. Confesso que aí acho que fui um pouco longe demais. Alguns temas simplesmente são demais para minha cabeça. Mas acho que deveria estudar um pouco mais de matemática e estatística, de qualquer forma.
Mas, quando penso nestas coisas, tento lembrar: Nira, você precisa se concentrar em um assunto. Senão, sabe sempre um pouco de tudo, mas não sabe nada realmente, com profundidade. Sou uma generalista. Queria entender algum assunto profundamente. Mas qual? Como escolher, diante de um mundo tão vasto e interessante?
agosto 07, 2009
Teletransporte
Adorei a definição de teletransporte no Wikipedia:
O teletransporte ou teleporte é o processo de moção de objetos de um lugar para outro, em curto espaço de tempo, sem a passagem pelo espaço intermediário. (Ver transporte). O teletransporte ainda é restrito ao campo de ficção científica e da ciência especulativa.
Esta definição clarifica dois pontos importantes para mim, quando o assunto é teletransporte:
1 - Ele é o máximo! Permite ir de um lugar para outro "sem a passagem pelo espaço intermediário", o que significa ir de São Paulo para o Rio sem passar pelo céu, por uma estrada, nem mesmo por trilhos. Simplesmente, chega-se. Nada de espera em aeroporto, transito infernal, turbulência, motoristas malucos. Eu poderia simplesmente trabalhar em São Paulo e, de repente, parar em um quiosque em frente a praia de Copacabana. Tudo num piscar de olhos.
2 - A segunda constatação é extremamente frustrante e seja quem escreveu o texto no Wikipedia teve algo de cruel. "O teletransporte ainda é restrito ao campo de ficção científica e da ciência especulativa." O Wikipedia pode ser um demolidor de sonhos.
Adorei a definição de teletransporte no Wikipedia:
O teletransporte ou teleporte é o processo de moção de objetos de um lugar para outro, em curto espaço de tempo, sem a passagem pelo espaço intermediário. (Ver transporte). O teletransporte ainda é restrito ao campo de ficção científica e da ciência especulativa.
Esta definição clarifica dois pontos importantes para mim, quando o assunto é teletransporte:
1 - Ele é o máximo! Permite ir de um lugar para outro "sem a passagem pelo espaço intermediário", o que significa ir de São Paulo para o Rio sem passar pelo céu, por uma estrada, nem mesmo por trilhos. Simplesmente, chega-se. Nada de espera em aeroporto, transito infernal, turbulência, motoristas malucos. Eu poderia simplesmente trabalhar em São Paulo e, de repente, parar em um quiosque em frente a praia de Copacabana. Tudo num piscar de olhos.
2 - A segunda constatação é extremamente frustrante e seja quem escreveu o texto no Wikipedia teve algo de cruel. "O teletransporte ainda é restrito ao campo de ficção científica e da ciência especulativa." O Wikipedia pode ser um demolidor de sonhos.
junho 25, 2009
Quem de dentro de si não sai
Vai morrer sem amar ninguém
Vinícius de Moraes
A Outra
Ontem assisti a um filme da fase dramática de Woody Allen: "A Outra" (Another Woman). Lindíssimo. Muito psicanálitico, acompanha a história de uma mulher (Marion) que, em seus cinqüenta e poucos anos, percebe que deixou-se fechar para os sentimentos, tornando-se fria e distante das pessoas. Ela apenas percebe isso ao começar a ouvir, por acidente, as consultas de uma jovem grávida com o psicanalista do escritório ao lado do seu.
O filme ainda é da fase Mia Farrow, que interpreta a jovem angustiada (pois é, o filme é antigo). A protagonista é Gena Rowlands.
É interessante como, por meio de sonhos e de confissões de pessoas próximas, Marion percebe que fez escolhas por demais racionais em sua vida, deixando os sentimentos de lado. Em uma cena, ela lembra que aos vinte e poucos anos engravidou do então marido, mas decidiu abortar. Abortou, por medo da ligação e do sentimento que teria pelo bebê. Suas relações com todos a sua volta são superficiais: com o marido (nunca fica sozinha com ele), com o irmão, com o pai. Sempre evita assuntos "inadequados" e age sempre de acordo com o supostamente "correto", fugindo de situações de conflito ou constrangedoras. Ao mesmo tempo, ela é intelectualmente brilhante e admirada.
Enfim, um excelente filme para ver em casa, pensativo.
Como em todo Woody Allen, a música é maravilhosa. Um exemplo aí embaixo.
Vai morrer sem amar ninguém
Vinícius de Moraes
A Outra
Ontem assisti a um filme da fase dramática de Woody Allen: "A Outra" (Another Woman). Lindíssimo. Muito psicanálitico, acompanha a história de uma mulher (Marion) que, em seus cinqüenta e poucos anos, percebe que deixou-se fechar para os sentimentos, tornando-se fria e distante das pessoas. Ela apenas percebe isso ao começar a ouvir, por acidente, as consultas de uma jovem grávida com o psicanalista do escritório ao lado do seu.
O filme ainda é da fase Mia Farrow, que interpreta a jovem angustiada (pois é, o filme é antigo). A protagonista é Gena Rowlands.
É interessante como, por meio de sonhos e de confissões de pessoas próximas, Marion percebe que fez escolhas por demais racionais em sua vida, deixando os sentimentos de lado. Em uma cena, ela lembra que aos vinte e poucos anos engravidou do então marido, mas decidiu abortar. Abortou, por medo da ligação e do sentimento que teria pelo bebê. Suas relações com todos a sua volta são superficiais: com o marido (nunca fica sozinha com ele), com o irmão, com o pai. Sempre evita assuntos "inadequados" e age sempre de acordo com o supostamente "correto", fugindo de situações de conflito ou constrangedoras. Ao mesmo tempo, ela é intelectualmente brilhante e admirada.
Enfim, um excelente filme para ver em casa, pensativo.
Como em todo Woody Allen, a música é maravilhosa. Um exemplo aí embaixo.
maio 31, 2009
Endorfina
Ana correu em direção a um autismo há algum tempo esquecido. Em cima da esteira parecia que o tempo se repetia. Movimentos e sons monótonos a levavam a seu interior. Ouvia o ritmo pesado de seu tênis sobre o chão em movimento.
A televisão a sua frente nada dizia. Ali, parecia que assistia a uma outra televisão enquanto corria absorta em pensamentos abstratos. O mundo lhe parecia mais exterior do que nunca. Ela era a única espectadora de um cinema gigantesco, com milhões de dimensões, que observava encantada.
Nas bicicletas paradas, as pessoas pareciam flutuar em câmera lenta. Os homens fortes urrando gritos guturais levantavam pesos pesadíssimos como num doce ballet. Na sala de ginástica as moças levitavam sobre camas elásticas, em lentos movimentos delicados. Nos aparelhos desajeitados, acrobatas realizavam movimentos doidos.
Naquele momento, alguém postou-se à frente da esteira. Ana não viu. Alguns minutos passaram até que percebesse a presença de uma moça movendo os lábios vagarosamente. Levou um tempo até que conseguisse escutar o que dizia:
- Ana, você está me ouvindo?
Era Felipa. Colega do trabalho. Fazia ginástica na mesma academia. E riu quando percebeu a ausência presente de Ana.
- Você estava viajando.
- Pois é. Estava mesmo. Tudo bem?
- Tudo. Estou gostando de ver sua presença na academia.
Ana sempre foi avessa a academias de ginástica. Mas também odiava ficar parada. De repente viu-se quase sem alternativas. E agora corria quase todos os dias em uma esteira eletrônica, com uma TV à frente. Achava aquele ambiente um tanto surrealista, com seus aparelhos e movimentos repetidos e organizados. Havia algo de fordiano, de Tempos Modernos, numa academia. E entrou naquela engrenagem gigante do filme de Chaplin até se acostumar. E mesmo gostar. Numa viagem louca no mesmo lugar.
Ana correu em direção a um autismo há algum tempo esquecido. Em cima da esteira parecia que o tempo se repetia. Movimentos e sons monótonos a levavam a seu interior. Ouvia o ritmo pesado de seu tênis sobre o chão em movimento.
A televisão a sua frente nada dizia. Ali, parecia que assistia a uma outra televisão enquanto corria absorta em pensamentos abstratos. O mundo lhe parecia mais exterior do que nunca. Ela era a única espectadora de um cinema gigantesco, com milhões de dimensões, que observava encantada.
Nas bicicletas paradas, as pessoas pareciam flutuar em câmera lenta. Os homens fortes urrando gritos guturais levantavam pesos pesadíssimos como num doce ballet. Na sala de ginástica as moças levitavam sobre camas elásticas, em lentos movimentos delicados. Nos aparelhos desajeitados, acrobatas realizavam movimentos doidos.
Naquele momento, alguém postou-se à frente da esteira. Ana não viu. Alguns minutos passaram até que percebesse a presença de uma moça movendo os lábios vagarosamente. Levou um tempo até que conseguisse escutar o que dizia:
- Ana, você está me ouvindo?
Era Felipa. Colega do trabalho. Fazia ginástica na mesma academia. E riu quando percebeu a ausência presente de Ana.
- Você estava viajando.
- Pois é. Estava mesmo. Tudo bem?
- Tudo. Estou gostando de ver sua presença na academia.
Ana sempre foi avessa a academias de ginástica. Mas também odiava ficar parada. De repente viu-se quase sem alternativas. E agora corria quase todos os dias em uma esteira eletrônica, com uma TV à frente. Achava aquele ambiente um tanto surrealista, com seus aparelhos e movimentos repetidos e organizados. Havia algo de fordiano, de Tempos Modernos, numa academia. E entrou naquela engrenagem gigante do filme de Chaplin até se acostumar. E mesmo gostar. Numa viagem louca no mesmo lugar.
maio 25, 2009
O Documentário de João
O documentário Nelson Freire é uma experiência. Não quer explicar. Não quer necessariamente informar.
Quer que o espectador sinta - exatamente como a música faz.
Tal como o músico que mal consegue se expressar com palavras - porque não precisa - o filme transmite emoção por imagem, som e silêncio. Fotografia, montagem e música. É sensorial e não racional.
Gostei muito do filme na primeira vez que vi. Mas só agora, ouvindo o João Moreira Salles falar, entendi o porquê.
O documentário Nelson Freire é uma experiência. Não quer explicar. Não quer necessariamente informar.
Quer que o espectador sinta - exatamente como a música faz.
Tal como o músico que mal consegue se expressar com palavras - porque não precisa - o filme transmite emoção por imagem, som e silêncio. Fotografia, montagem e música. É sensorial e não racional.
Gostei muito do filme na primeira vez que vi. Mas só agora, ouvindo o João Moreira Salles falar, entendi o porquê.
maio 24, 2009
Artaud
Li em um excelente artigo de Arnaldo Jabor:
"A arte não é a imitação da vida. A vida é que é a imitação de alguma coisa transcendental com que a arte nos põe em contato", Antonin Artaud.
O artigo é genial. Recomendo a leitura.
Li em um excelente artigo de Arnaldo Jabor:
"A arte não é a imitação da vida. A vida é que é a imitação de alguma coisa transcendental com que a arte nos põe em contato", Antonin Artaud.
O artigo é genial. Recomendo a leitura.
maio 16, 2009
Simonal
Acabei de assistir ao documentário sobre o Wilson Simonal, "Ninguém sabe o duro que dei". Recomendo fortemente. Vale pela história, pela excelente pesquisa e pela música. A edição é bem feita, criando uma narrativa envolvente. A vida de sucesso e decadência de Wilson Simonal é contada através de depoimentos, linearmente, e a vida de Wilson Simonal é fascinante.
Para quem não sabe, ele não foi apenas o pai do Simoninha e do Max de Castro. Foi um dos cantores de maior sucesso no Brasil da década de 60, início de 70. As imagens mostradas no documentário são impressionantes, especialmente aquela em que o cantor rege um coro de 30 mil (ou 40 ou 50) pessoas no Maracanã.
Simonal impressiona não apenas por isso, mas também por suas qualidades como cantor. Com suingue, com emoção, com técnica, com carisma. É quase inacreditável que um único grande erro em sua vida o tenha levado ao ostracismo.
Vale a pena assistir nem que seja apenas para ouvir a música ou apenas para conhecer a história deste homem ou apenas para ver como poder ser cruel julgar e condenar alguém a penas perpétuas.
Apesar de o filme ter alguns problemas técnicos, vale muito a pena. Não sei o que houve na captação das entrevistas, mas algumas imagens dos depoimentos ficaram estranhas. Nada que comprometa o filme.
Um pouco de Simonal, para dar o gostinho:
Acabei de assistir ao documentário sobre o Wilson Simonal, "Ninguém sabe o duro que dei". Recomendo fortemente. Vale pela história, pela excelente pesquisa e pela música. A edição é bem feita, criando uma narrativa envolvente. A vida de sucesso e decadência de Wilson Simonal é contada através de depoimentos, linearmente, e a vida de Wilson Simonal é fascinante.
Para quem não sabe, ele não foi apenas o pai do Simoninha e do Max de Castro. Foi um dos cantores de maior sucesso no Brasil da década de 60, início de 70. As imagens mostradas no documentário são impressionantes, especialmente aquela em que o cantor rege um coro de 30 mil (ou 40 ou 50) pessoas no Maracanã.
Simonal impressiona não apenas por isso, mas também por suas qualidades como cantor. Com suingue, com emoção, com técnica, com carisma. É quase inacreditável que um único grande erro em sua vida o tenha levado ao ostracismo.
Vale a pena assistir nem que seja apenas para ouvir a música ou apenas para conhecer a história deste homem ou apenas para ver como poder ser cruel julgar e condenar alguém a penas perpétuas.
Apesar de o filme ter alguns problemas técnicos, vale muito a pena. Não sei o que houve na captação das entrevistas, mas algumas imagens dos depoimentos ficaram estranhas. Nada que comprometa o filme.
Um pouco de Simonal, para dar o gostinho:
maio 06, 2009
O que é traição?
Traição. O que é traição? É o sexo? Não sei. Me parece que pior do que a traição do sexo é a traição da amizade, a traição da confiança, a traição do respeito.
Traição é a sensação terrível de perder o chão. É a decepção seguida de raiva, seguida de resignação. Em alguns casos, seguida de vingança.
Traição é o fim da ingenuidade. É o fim de algumas crenças. É dormir com o olho aberto. É esquecer os bons momentos e transformá-los em análises.
Traição. O que é traição? Não sei. Estou descobrindo.
Traição. O que é traição? É o sexo? Não sei. Me parece que pior do que a traição do sexo é a traição da amizade, a traição da confiança, a traição do respeito.
Traição é a sensação terrível de perder o chão. É a decepção seguida de raiva, seguida de resignação. Em alguns casos, seguida de vingança.
Traição é o fim da ingenuidade. É o fim de algumas crenças. É dormir com o olho aberto. É esquecer os bons momentos e transformá-los em análises.
Traição. O que é traição? Não sei. Estou descobrindo.
abril 23, 2009
Memória
A memória é mesmo uma coisa muito louca.
Outra dia meu pai estava todo feliz, porque leu em alguma revista do cabelereiro que não lembrar de tudo é importante para a inteligência ou algo assim. Isso porque a lembrança ocuparia uma parte importante do seu cérebro.
Obviamente meu pai é um cara esquecido.
Bem, isso foi só um nariz de cera para contar que não lembro do momento em que escrevi o texto do post anterior, aí embaixo.
Um dia, entrei no editor do blog (publisher, sei-lá como chama) e lá estava o texto entre os rascunhos. Segundo o Blogger, eu o havia escrito uma semana antes. E simplesmente não lembrava. Não lembro, na verdade. Quando escrevi? Por que escrevi? Como assim, "quem tucanou a Madonna?"... Que viagem!
O fato é que escrevi, porque só eu tenho a senha do blogger... Então, publiquei. Publiquei e assinei um texto que não lembro de ter escrito, simplesmente porque tudo indica que fui eu que escrevi.
Mas, a memória é uma coisa muito louca, não é não?
A memória é mesmo uma coisa muito louca.
Outra dia meu pai estava todo feliz, porque leu em alguma revista do cabelereiro que não lembrar de tudo é importante para a inteligência ou algo assim. Isso porque a lembrança ocuparia uma parte importante do seu cérebro.
Obviamente meu pai é um cara esquecido.
Bem, isso foi só um nariz de cera para contar que não lembro do momento em que escrevi o texto do post anterior, aí embaixo.
Um dia, entrei no editor do blog (publisher, sei-lá como chama) e lá estava o texto entre os rascunhos. Segundo o Blogger, eu o havia escrito uma semana antes. E simplesmente não lembrava. Não lembro, na verdade. Quando escrevi? Por que escrevi? Como assim, "quem tucanou a Madonna?"... Que viagem!
O fato é que escrevi, porque só eu tenho a senha do blogger... Então, publiquei. Publiquei e assinei um texto que não lembro de ter escrito, simplesmente porque tudo indica que fui eu que escrevi.
Mas, a memória é uma coisa muito louca, não é não?
abril 22, 2009
Mistérios
Quem matou Laura Palmer?
Quem matou Odete Roitman?
E Baby Jane?
Quem sequestrou o Michael Jackson?
Quem tucanou a Madonna?
Quem inchou o Maradona?
Quem comeu a chapeuzinho?
Ou seria a vovozinha?
Que comeu o Lobo Mau?
Quem viu o Equador?
Passeou pela Nova Guiné?
Ou jantou na Mauritânea?
Quem? Quem?
Eu pergunto:
Quem?
Quem matou Laura Palmer?
Quem matou Odete Roitman?
E Baby Jane?
Quem sequestrou o Michael Jackson?
Quem tucanou a Madonna?
Quem inchou o Maradona?
Quem comeu a chapeuzinho?
Ou seria a vovozinha?
Que comeu o Lobo Mau?
Quem viu o Equador?
Passeou pela Nova Guiné?
Ou jantou na Mauritânea?
Quem? Quem?
Eu pergunto:
Quem?
abril 01, 2009
março 22, 2009
Bons curtas disponíveis na net
O Porta-Curtas é um site bacana que exibe alguns filmes às vezes não encontrados nem no YouTube.
Incluí aqui dois links que valem a pena.
O primeiro é um documentário muito legal sobre a morte da personagem Rê Bordosa. O mais divertido é que o doc é uma animação.
Dossiê Rê Bordosa
O segundo curta já é um clássico. Filmaço. Sempre vale rever.
Ilha das Flores
O Porta-Curtas é um site bacana que exibe alguns filmes às vezes não encontrados nem no YouTube.
Incluí aqui dois links que valem a pena.
O primeiro é um documentário muito legal sobre a morte da personagem Rê Bordosa. O mais divertido é que o doc é uma animação.
Dossiê Rê Bordosa
O segundo curta já é um clássico. Filmaço. Sempre vale rever.
Ilha das Flores
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