Arnaldo Antunes
A gente não quer só comida.
A gente quer comida, diversão e arte.
março 04, 2009
março 02, 2009
Cinema é a maior diversão
Até o momento, vi apenas dois dos filmes que concorreram à categoria principal do Oscar: Quem quer ser um milionário e O curioso caso de Benjamin Button. Gostei dos dois, mas em graus imensamente diferentes. Minha preferência é certamente pelo segundo filme.
O primeiro é divertido. A história se passa numa Índia diferente daquela que costumamos ver no cinema: mais ou menos o que Cidade de Deus fez com o Rio de Janeiro.
Parênteses: vi algumas pessoas comparar Cidade de Deus e Quem quer ser um milionário. Não vejo semelhanças. O brasileiro é infinitamente mais criativo e original, características que faltam ao filme indo-americano. Do roteiro à fotografia, passando pela edição e direção, Cidade de Deus está em outro patamar cinematográfico. Fecha parênteses.
A película de Danny Boyle é divertida, mas não tem nenhuma profundidade. A história é até um pouco boba. O mais interessante do filme é a paisagem e os personagens, o lado antropológico da obra, mostrando um pouco da vida dos indianos menos favorecidos. Nada que mereça um batalhão de prêmios.
É até com alguma tristeza que constato isso, já que Danny Boyle dirigiu um dos melhores e mais originais filmes que já assisti: Trainspotting.
Do outro lado da balança, gostei muito de Benjamin Button. Já li diversas críticas negativas ao filme, mas discordo totalmente delas. Acho o filme muito sensível, adorei a atuação da Cate Blanchett, a fotografia é extremamente cuidadosa, os personagens interessantes... Até os efeitos especiais são usados de uma forma que gostei bastante, incorporando-se inteiramente à história e aos atores. Benjamin é muito emotivo e gosto de filmes que conseguem tocar a emoção desta forma. Uma linda fábula.
Ainda faltam alguns filmes, que pretendo assistir nas próximas semanas. Ao contrário de alguns amigos, adoro a festa do Oscar. Acho fascinante. Me encanta ver os atores como personagens reais, homenageando-se, aplaudindo-se, emocionando-se. Celebrando a arte do cinema, enfim (sim, há espaço para a arte na maior "indústria" cinematográfica do mundo).
Até o momento, vi apenas dois dos filmes que concorreram à categoria principal do Oscar: Quem quer ser um milionário e O curioso caso de Benjamin Button. Gostei dos dois, mas em graus imensamente diferentes. Minha preferência é certamente pelo segundo filme.
O primeiro é divertido. A história se passa numa Índia diferente daquela que costumamos ver no cinema: mais ou menos o que Cidade de Deus fez com o Rio de Janeiro.
Parênteses: vi algumas pessoas comparar Cidade de Deus e Quem quer ser um milionário. Não vejo semelhanças. O brasileiro é infinitamente mais criativo e original, características que faltam ao filme indo-americano. Do roteiro à fotografia, passando pela edição e direção, Cidade de Deus está em outro patamar cinematográfico. Fecha parênteses.
A película de Danny Boyle é divertida, mas não tem nenhuma profundidade. A história é até um pouco boba. O mais interessante do filme é a paisagem e os personagens, o lado antropológico da obra, mostrando um pouco da vida dos indianos menos favorecidos. Nada que mereça um batalhão de prêmios.
É até com alguma tristeza que constato isso, já que Danny Boyle dirigiu um dos melhores e mais originais filmes que já assisti: Trainspotting.
Do outro lado da balança, gostei muito de Benjamin Button. Já li diversas críticas negativas ao filme, mas discordo totalmente delas. Acho o filme muito sensível, adorei a atuação da Cate Blanchett, a fotografia é extremamente cuidadosa, os personagens interessantes... Até os efeitos especiais são usados de uma forma que gostei bastante, incorporando-se inteiramente à história e aos atores. Benjamin é muito emotivo e gosto de filmes que conseguem tocar a emoção desta forma. Uma linda fábula.
Ainda faltam alguns filmes, que pretendo assistir nas próximas semanas. Ao contrário de alguns amigos, adoro a festa do Oscar. Acho fascinante. Me encanta ver os atores como personagens reais, homenageando-se, aplaudindo-se, emocionando-se. Celebrando a arte do cinema, enfim (sim, há espaço para a arte na maior "indústria" cinematográfica do mundo).
fevereiro 15, 2009
Capítulo 5
Não reconheceu em si a erudição de seu pai, a habilidade de sua mãe ou a grandeza moral de seus avós naquela terça-feira. Qual herança os mais diversos genes e as mais diversas mentalidades haviam deixado nela?
Às vezes questionava-se qual traço de sua personalidade e de seu cabelo havia herdado de seu trisavô. Aquilo simplesmente desaparecera?
De onde vinham aqueles constantes questionamentos? Não poderiam vir apenas daqueles 25 anos de vida.
Não acreditava em Deus.
Não acreditava no sobrenatural.
Mas acreditava na força das heranças, que era rica e repressora de uma forma imensamente intrincada.
O telefone tocou. Ana percebeu que aquele almoço durava mais do que o determinado. Absorta em pensamentos que a tornavam invisível, esquecera que o tempo da refeição era apenas de uma hora.
- Alô?
- Alô.
- Pois não?
- Cadê o documento da reunião?
- Na mesma gaveta.
- Ah! Obrigado! Onde você está?
"Boa pergunta", pensou. Mas respondeu:
- Pagando a conta do almoço.
Não gostava de comer sozinha, pois pensava demais. Pensamentos desconectados da realidade. Por mais que lesse uma revista enquanto comesse, hábito inteiramente copiado de seu pai, as elucubrações eram sempre sobre outros temas.
Aquele hábito que ela detestava em si, de segurar as próprias mãos, enquanto falava sobre algo sério e, geralmente, desagradável, era ela ou seu trisavô? Adoraria atribuí-lo ao avô e livrar-se da responsabilidade.
Talvez a teoria das heranças fossem apenas uma desculpa para não enfrentar suas próprias dores e dúvidas.
Naquele momento, não reconhecia em si a erudição de seu pai, a habilidade de sua mãe ou a grandeza moral de seus avós. Reconhecia, porém, as neuroses. Reconhecia as culpas. Reconhecia o medo de contrariá-los na essência e não na superfície, como sempre havia feito.
Aliás, todas as formas superficiais de contrariá-los foram burras. Perdeu coisas boas, pelo simples ato adolescente de contrariar. Mas nunca atingiu o essencial, que sempre seguiu sem verdadeiros questionamentos.
Não reconheceu em si a erudição de seu pai, a habilidade de sua mãe ou a grandeza moral de seus avós naquela terça-feira. Qual herança os mais diversos genes e as mais diversas mentalidades haviam deixado nela?
Às vezes questionava-se qual traço de sua personalidade e de seu cabelo havia herdado de seu trisavô. Aquilo simplesmente desaparecera?
De onde vinham aqueles constantes questionamentos? Não poderiam vir apenas daqueles 25 anos de vida.
Não acreditava em Deus.
Não acreditava no sobrenatural.
Mas acreditava na força das heranças, que era rica e repressora de uma forma imensamente intrincada.
O telefone tocou. Ana percebeu que aquele almoço durava mais do que o determinado. Absorta em pensamentos que a tornavam invisível, esquecera que o tempo da refeição era apenas de uma hora.
- Alô?
- Alô.
- Pois não?
- Cadê o documento da reunião?
- Na mesma gaveta.
- Ah! Obrigado! Onde você está?
"Boa pergunta", pensou. Mas respondeu:
- Pagando a conta do almoço.
Não gostava de comer sozinha, pois pensava demais. Pensamentos desconectados da realidade. Por mais que lesse uma revista enquanto comesse, hábito inteiramente copiado de seu pai, as elucubrações eram sempre sobre outros temas.
Aquele hábito que ela detestava em si, de segurar as próprias mãos, enquanto falava sobre algo sério e, geralmente, desagradável, era ela ou seu trisavô? Adoraria atribuí-lo ao avô e livrar-se da responsabilidade.
Talvez a teoria das heranças fossem apenas uma desculpa para não enfrentar suas próprias dores e dúvidas.
Naquele momento, não reconhecia em si a erudição de seu pai, a habilidade de sua mãe ou a grandeza moral de seus avós. Reconhecia, porém, as neuroses. Reconhecia as culpas. Reconhecia o medo de contrariá-los na essência e não na superfície, como sempre havia feito.
Aliás, todas as formas superficiais de contrariá-los foram burras. Perdeu coisas boas, pelo simples ato adolescente de contrariar. Mas nunca atingiu o essencial, que sempre seguiu sem verdadeiros questionamentos.
fevereiro 03, 2009
Um filme genial
Não é arrogância, mas prefiro não mencionar o nome do filme em português. Ele simplesmente entrega mais do que devia. Chama-se Revolutionary Road. Um filme genial.
Começando pelo meio, a película vale por um dos melhores personagens dos últimos tempos, o insano John Givings, um gênio-louco que conta todas as verdades do filme: se você não estava realmente entendendo, ele vai te explicar.
Num foco bem diferente de Beleza Americana, o diretor Sam Mendes volta a abordar o tema da hipocrisia, da vida medíocre, da coragem de tomar a decisão correta.
Em Beleza Americana o herói era um homem mediano que decide romper o "caminho esperado" para, por exemplo, ter emprego de menor status e viver com tempo.
Em Revolutionary Road, temos uma heroína descontente, procurando sentido na vida e intensidade.
O personagem de Leonardo di Caprio é um banana, para ser bem direta. O filme tenta amenizar o lado dele, mas, venhamos e convenhamos, é um banana. Ou como diria Michael J. Fox em "De volta para o futuro", é um "chicken".
Passado este parágrafo-comentário-revolta, o que tenho a dizer sobre o filme é: vá ver! É um filme daqueles que faz refletir sobre um monte de coisas: desde abstratos, como sentido da vida, imagem diante da sociedade, complexo de Édipo, seu papel no mundo, até concretos, como aborto, paternidade precoce, traição, sexo.
Imperdível. Um dos melhores de uma temporada excelente.
Não é arrogância, mas prefiro não mencionar o nome do filme em português. Ele simplesmente entrega mais do que devia. Chama-se Revolutionary Road. Um filme genial.
Começando pelo meio, a película vale por um dos melhores personagens dos últimos tempos, o insano John Givings, um gênio-louco que conta todas as verdades do filme: se você não estava realmente entendendo, ele vai te explicar.
Num foco bem diferente de Beleza Americana, o diretor Sam Mendes volta a abordar o tema da hipocrisia, da vida medíocre, da coragem de tomar a decisão correta.
Em Beleza Americana o herói era um homem mediano que decide romper o "caminho esperado" para, por exemplo, ter emprego de menor status e viver com tempo.
Em Revolutionary Road, temos uma heroína descontente, procurando sentido na vida e intensidade.
O personagem de Leonardo di Caprio é um banana, para ser bem direta. O filme tenta amenizar o lado dele, mas, venhamos e convenhamos, é um banana. Ou como diria Michael J. Fox em "De volta para o futuro", é um "chicken".
Passado este parágrafo-comentário-revolta, o que tenho a dizer sobre o filme é: vá ver! É um filme daqueles que faz refletir sobre um monte de coisas: desde abstratos, como sentido da vida, imagem diante da sociedade, complexo de Édipo, seu papel no mundo, até concretos, como aborto, paternidade precoce, traição, sexo.
Imperdível. Um dos melhores de uma temporada excelente.
janeiro 29, 2009
janeiro 16, 2009
Hoje (nada senão o instante me conhece)
Gosto do Obama.
Não gosto do Chavez.
Admiro o Gabeira e a Danuza.
Desprezo o Sérgio Cabral e o Eduardo Paes.
Amo o Chico.
Adoro o Caetano.
Me decepcionei com o Gil.
Detesto o Bush.
Tenho sentimentos dúbios sobre o Lula. Idem sobre o FH.
Acho o Kassab uma figura intrigante.
E a Marta, arrogante.
Acho o Tom Zé muito Louco.
E o William Bonner, muito chato.
Tenho carinho pelo Paulinho da Viola...
Pena da Gal...
E ódio do Ahmadinejad.
Queria conhecer mais Ella Fitzgerald e Chet Baker,
Como conheço Tom e Vinícius.
Quero ter a vida do João Moreira Salles,
A saúde do Oscar Niemeyer,
A coragem do Amyr Klink,
A inteligência do Dostoievski
E o olhar do Charles Chaplin.
Resumindo, é isso.
Gosto do Obama.
Não gosto do Chavez.
Admiro o Gabeira e a Danuza.
Desprezo o Sérgio Cabral e o Eduardo Paes.
Amo o Chico.
Adoro o Caetano.
Me decepcionei com o Gil.
Detesto o Bush.
Tenho sentimentos dúbios sobre o Lula. Idem sobre o FH.
Acho o Kassab uma figura intrigante.
E a Marta, arrogante.
Acho o Tom Zé muito Louco.
E o William Bonner, muito chato.
Tenho carinho pelo Paulinho da Viola...
Pena da Gal...
E ódio do Ahmadinejad.
Queria conhecer mais Ella Fitzgerald e Chet Baker,
Como conheço Tom e Vinícius.
Quero ter a vida do João Moreira Salles,
A saúde do Oscar Niemeyer,
A coragem do Amyr Klink,
A inteligência do Dostoievski
E o olhar do Charles Chaplin.
Resumindo, é isso.
janeiro 14, 2009
janeiro 12, 2009
Paz e passividade
Não reconheço a imagem dos judeus e de Israel que vejo na televisão, nos jornais, nas revistas. Sou judia, filha de israelense. Fui educada num ambiente essencialmente humanista, tolerante e de respeito ao próximo.
Fui ensinada a ouvir a opinião dos outros. E também a, quando discordar, discutir com respeito. Me ensinaram que "quem salva uma vida, salva o mundo". Que não há nada maior do que uma vida. Estes são os ideais judaicos que eu conheço e com os quais sempre convivi.
Conheci bem quase todos os meus avós e sei que essa tradição vem deles. Admiro a todos, principalmente considerando-se a história deles.
A família do meu avô paterno - pai, mãe, três irmãs e um irmão - foi assassinada durante a segunda guerra mundial na Polônia. Todos eram civis e extremamente religiosos. Minha família nunca pregou o ódio aos alemães ou aos poloneses. Nunca sequer citou algo como o fim de um dos países ou de uma das culturas.
A história dos meus avós maternos é semelhante. O pai da minha mãe nasceu na Alemanha. Todos os familiares mais próximos foram assassinados. Só ele sobreviveu.
Meus avós eram - e minhas avós são - pessoas afáveis, simpáticas, que sempre almejaram aproveitar a vida e curtir a família. Sempre pregaram o respeito ao próximo. Nunca falaram em ódio, repito, mesmo tendo passado por algumas das situações mais terríveis que um ser humano pode passar.
Mas uma coisa os judeus aprenderam com a Segunda Guerra: passividade não é sinônimo de paz.
Até que ponto, em nome de uma suposta paz, se pode tolerar agressões? Israel se retirou completamente de Gaza há cerca de 3 anos.
E, embora muitos preconceituosos não acreditem, Israel gostaria de que Gaza se desenvolvesse em paz, que seus habitantes tivessem acesso a saúde de qualidade, educação, lazer, cultura. Isso significaria a paz, que é o que deseja a maior parte da população israelense.
Quem não quer isso é boa parte dos dirigentes árabes. Basta ver como vivem suas populações. São eles que usam a população empobrecida e, muitas vezes, ignorante como massa de manobra. São eles que usam os palestinos como objeto de propaganda e manipulam as massas contra o inimigo comum (essa é velha: basta ler 1984!).
Defendo Israel porque fui criada dentro dos ideais do Estado judeu. E sei que eles nada têm a ver com o que muitas vezes se divulga na mídia. Israel sonha sim com a paz, a convivência pacífica e tolerante entre os povos e com o desenvolvimento humano e social de todos.
Repito: passividade não é simônimo de paz. Infelizmente.
Não reconheço a imagem dos judeus e de Israel que vejo na televisão, nos jornais, nas revistas. Sou judia, filha de israelense. Fui educada num ambiente essencialmente humanista, tolerante e de respeito ao próximo.
Fui ensinada a ouvir a opinião dos outros. E também a, quando discordar, discutir com respeito. Me ensinaram que "quem salva uma vida, salva o mundo". Que não há nada maior do que uma vida. Estes são os ideais judaicos que eu conheço e com os quais sempre convivi.
Conheci bem quase todos os meus avós e sei que essa tradição vem deles. Admiro a todos, principalmente considerando-se a história deles.
A família do meu avô paterno - pai, mãe, três irmãs e um irmão - foi assassinada durante a segunda guerra mundial na Polônia. Todos eram civis e extremamente religiosos. Minha família nunca pregou o ódio aos alemães ou aos poloneses. Nunca sequer citou algo como o fim de um dos países ou de uma das culturas.
A história dos meus avós maternos é semelhante. O pai da minha mãe nasceu na Alemanha. Todos os familiares mais próximos foram assassinados. Só ele sobreviveu.
Meus avós eram - e minhas avós são - pessoas afáveis, simpáticas, que sempre almejaram aproveitar a vida e curtir a família. Sempre pregaram o respeito ao próximo. Nunca falaram em ódio, repito, mesmo tendo passado por algumas das situações mais terríveis que um ser humano pode passar.
Mas uma coisa os judeus aprenderam com a Segunda Guerra: passividade não é sinônimo de paz.
Até que ponto, em nome de uma suposta paz, se pode tolerar agressões? Israel se retirou completamente de Gaza há cerca de 3 anos.
E, embora muitos preconceituosos não acreditem, Israel gostaria de que Gaza se desenvolvesse em paz, que seus habitantes tivessem acesso a saúde de qualidade, educação, lazer, cultura. Isso significaria a paz, que é o que deseja a maior parte da população israelense.
Quem não quer isso é boa parte dos dirigentes árabes. Basta ver como vivem suas populações. São eles que usam a população empobrecida e, muitas vezes, ignorante como massa de manobra. São eles que usam os palestinos como objeto de propaganda e manipulam as massas contra o inimigo comum (essa é velha: basta ler 1984!).
Defendo Israel porque fui criada dentro dos ideais do Estado judeu. E sei que eles nada têm a ver com o que muitas vezes se divulga na mídia. Israel sonha sim com a paz, a convivência pacífica e tolerante entre os povos e com o desenvolvimento humano e social de todos.
Repito: passividade não é simônimo de paz. Infelizmente.
janeiro 06, 2009
Israel
A desumanização de Israel em curso em alguns setores do planeta é um dos maiores equívocos contemporâneos, fruto do antissemitismo, da ingenuidade e da ignorância.
Sérgio Malbergier, jornalista
Depoimento de uma mulher corajosa
A desumanização de Israel em curso em alguns setores do planeta é um dos maiores equívocos contemporâneos, fruto do antissemitismo, da ingenuidade e da ignorância.
Sérgio Malbergier, jornalista
Depoimento de uma mulher corajosa
janeiro 03, 2009
Capítulo 4
Permitiu-se chorar naquele momento. Pensou em colocar uma música triste no MP3 e cultivar a tristeza como fez ao longo da adolescência, ao som do CD "Let it Be", dos Beatles. Mas o pensamento passou como uma rajada de vento em sua mente. Não era mais adolescente. Não queria mais cultivar a tristeza.
A lágrima quase solitária caiu lentamente, a tempo de senti-la deslizar em sua bochecha e secar por ali mesmo.
- A lágrima seca é um aviso.
Foi até o MP3 ligado a umas caixinhas de som e escolheu um sambão da Beth Carvalho, que adorava ouvir em festas animadas:
Chora!
Não vou ligar
Não vou ligar!
Chegou a hora
Vais me pagar
Pode chorar
Pode chorar
E começou a dançar sozinha.
Ligou para uma amiga querida, uma dos velhos tempos, a quem via e com quem falava época sim, época não.
- Oi!!!! Sabe o que estou ouvindo?
- Naninha, é você?
- Oi!!! Sabe o que estou ouvindo?
- Abaixa isso aí, pô!!
- Adoro essa música.
- Hahaha! Eu também! Tá animada, hein gata.
- Vamos sair?
Priscila havia se mudado para São Paulo um pouco antes de Ana, por pura coincidência - ou porque cedo ou tarde todos se mudavam para São Paulo. Estudaram juntas no colégio, mas nem sempre na mesma turma. Em algumas fases da vida, tiveram diferenças que a afastavam como ímãs virados para o mesmo pólo. Nunca brigaram. Simplesmente percebiam.
Em comum, as duas tinham o desejo de lidar bem com as diferenças. Numa fase, achavam tudo natural: amigos mauricinhos, amigos nerds, amigos suburbanos, amigos playboyzinhos, amigos maconheiros, amigos drogados, amigos certinhos, amigos doidões, amigos tímidos, amigos não-fede-nem-cheira... Todo mundo tinha alguma coisa especial, que ambas captavam com suas anteninhas moderninhas.
Enfim, ainda tinham contatos, mesmo que esparsos, com alguns exemplares de cada espécime. Mas não se pode negar que fizeram uma seleção inconsciente (talvez elas é que tenham sido selecionadas, não importa). Era a vida adulta mostrando mais uma de suas facetas.
- É muito chato ser adulto - soltou Ana, numa frase sem contexto.
Mas Priscila entendeu.
- Queria que alguém me dissesse se é melhor usar pregador de plástico ou de madeira, se é melhor comprar panela de inox ou com teflon, um colchão de mola ou de espuma, se omo é realmente melhor que ace... – listou uma infinidade de comparações esdrúxulas.
Uma das lamúrias mais constantes de Ana e Priscila após chegarem a São Paulo era a chatice da maioridade em vias de fato. Vivendo a cerca de 450 km de suas famílias, sentiram o choque da vida adulta com uma intensidade que não esperavam.
As duas consideravam-se maduras e responsáveis, capazes de resolver qualquer assunto. Mas, no fundo, ainda ansiavam pelo aval paterno. Levariam alguns anos para perceber isso e outros tantos para se livrar disso.
Saíram. Priscila reconhecia instantaneamente a TPM de Ana. Até que era divertida.
Permitiu-se chorar naquele momento. Pensou em colocar uma música triste no MP3 e cultivar a tristeza como fez ao longo da adolescência, ao som do CD "Let it Be", dos Beatles. Mas o pensamento passou como uma rajada de vento em sua mente. Não era mais adolescente. Não queria mais cultivar a tristeza.
A lágrima quase solitária caiu lentamente, a tempo de senti-la deslizar em sua bochecha e secar por ali mesmo.
- A lágrima seca é um aviso.
Foi até o MP3 ligado a umas caixinhas de som e escolheu um sambão da Beth Carvalho, que adorava ouvir em festas animadas:
Chora!
Não vou ligar
Não vou ligar!
Chegou a hora
Vais me pagar
Pode chorar
Pode chorar
E começou a dançar sozinha.
Ligou para uma amiga querida, uma dos velhos tempos, a quem via e com quem falava época sim, época não.
- Oi!!!! Sabe o que estou ouvindo?
- Naninha, é você?
- Oi!!! Sabe o que estou ouvindo?
- Abaixa isso aí, pô!!
- Adoro essa música.
- Hahaha! Eu também! Tá animada, hein gata.
- Vamos sair?
Priscila havia se mudado para São Paulo um pouco antes de Ana, por pura coincidência - ou porque cedo ou tarde todos se mudavam para São Paulo. Estudaram juntas no colégio, mas nem sempre na mesma turma. Em algumas fases da vida, tiveram diferenças que a afastavam como ímãs virados para o mesmo pólo. Nunca brigaram. Simplesmente percebiam.
Em comum, as duas tinham o desejo de lidar bem com as diferenças. Numa fase, achavam tudo natural: amigos mauricinhos, amigos nerds, amigos suburbanos, amigos playboyzinhos, amigos maconheiros, amigos drogados, amigos certinhos, amigos doidões, amigos tímidos, amigos não-fede-nem-cheira... Todo mundo tinha alguma coisa especial, que ambas captavam com suas anteninhas moderninhas.
Enfim, ainda tinham contatos, mesmo que esparsos, com alguns exemplares de cada espécime. Mas não se pode negar que fizeram uma seleção inconsciente (talvez elas é que tenham sido selecionadas, não importa). Era a vida adulta mostrando mais uma de suas facetas.
- É muito chato ser adulto - soltou Ana, numa frase sem contexto.
Mas Priscila entendeu.
- Queria que alguém me dissesse se é melhor usar pregador de plástico ou de madeira, se é melhor comprar panela de inox ou com teflon, um colchão de mola ou de espuma, se omo é realmente melhor que ace... – listou uma infinidade de comparações esdrúxulas.
Uma das lamúrias mais constantes de Ana e Priscila após chegarem a São Paulo era a chatice da maioridade em vias de fato. Vivendo a cerca de 450 km de suas famílias, sentiram o choque da vida adulta com uma intensidade que não esperavam.
As duas consideravam-se maduras e responsáveis, capazes de resolver qualquer assunto. Mas, no fundo, ainda ansiavam pelo aval paterno. Levariam alguns anos para perceber isso e outros tantos para se livrar disso.
Saíram. Priscila reconhecia instantaneamente a TPM de Ana. Até que era divertida.
janeiro 02, 2009
Ano novo, vida velha
À meia-noite os fogos explodiram como era esperado. Alguns dos presentes foram tomados pela emoção das circunstâncias: o som espantoso, as luzes fortíssimas, as cores exuberantes. O ambiente era apropriado para a emoção. Os presentes abraçaram-se, alguns até choraram. Foi assim com quase todos os presentes – não conseguiu visualizar todo mundo-, mas não com ela.
Às vezes achava que não era afeita a emoções. Porém não era raro chorar assistindo ao noticiário, o que contrariava essa tese e a fazia pensar que não era correta. Mas por que os presentes emocionaram-se à meia-noite e não ela?
Olhou aqueles ao seu redor. Alguns vieram abraçá-la inclusive. Ela retornou os abraços, embora sem muito entusiasmo. Não sabia fingir emoção, o que era um de seus defeitos. Uma das presentes comentou com outro que ela era muito fria.
É claro, sua intenção não era que ela escutasse o comentário, mas entre um berro e outro, entre uma explosão e outra, entre um champanhe e outro, ouviu. Aquilo feriu fundo seu coração. Quase chorou – o que talvez tivesse sido bom para mostrar àquela vadia... – mas não gostava se mostrar frágil em público. E segurou o choro na garganta.
Seus olhos umedeceram, mas ninguém percebeu.
A última vez que chorara fora assistindo o Jornal da Globo, com William Waack e Christiane Pelajo. Uma pequena orquestra de crianças do interior do Pernambuco tocava uma obra de Mozart. Essa era a notícia. Sem mais, uma lágrima percorreu seu rosto, traçando um caminho sinuoso entre os olhos e a boca. Ela sentiu aquele gostinho salgado e lembrou de sua própria infância, quando tinha vergonha de chorar e se escondia no armário do quarto. E depois ficava saboreando o sabor salgadinho, até que era bom!
Essa viagem à infância não ajudou muito. Não entendeu direito por que não se emocionou, ao contrário de quase todos – ou todos – os presentes. Mas tudo bem. O momento logo passou, as emoções passaram, e quase todos – ou todos – seguiram mais um ano sem chororô.
À meia-noite os fogos explodiram como era esperado. Alguns dos presentes foram tomados pela emoção das circunstâncias: o som espantoso, as luzes fortíssimas, as cores exuberantes. O ambiente era apropriado para a emoção. Os presentes abraçaram-se, alguns até choraram. Foi assim com quase todos os presentes – não conseguiu visualizar todo mundo-, mas não com ela.
Às vezes achava que não era afeita a emoções. Porém não era raro chorar assistindo ao noticiário, o que contrariava essa tese e a fazia pensar que não era correta. Mas por que os presentes emocionaram-se à meia-noite e não ela?
Olhou aqueles ao seu redor. Alguns vieram abraçá-la inclusive. Ela retornou os abraços, embora sem muito entusiasmo. Não sabia fingir emoção, o que era um de seus defeitos. Uma das presentes comentou com outro que ela era muito fria.
É claro, sua intenção não era que ela escutasse o comentário, mas entre um berro e outro, entre uma explosão e outra, entre um champanhe e outro, ouviu. Aquilo feriu fundo seu coração. Quase chorou – o que talvez tivesse sido bom para mostrar àquela vadia... – mas não gostava se mostrar frágil em público. E segurou o choro na garganta.
Seus olhos umedeceram, mas ninguém percebeu.
A última vez que chorara fora assistindo o Jornal da Globo, com William Waack e Christiane Pelajo. Uma pequena orquestra de crianças do interior do Pernambuco tocava uma obra de Mozart. Essa era a notícia. Sem mais, uma lágrima percorreu seu rosto, traçando um caminho sinuoso entre os olhos e a boca. Ela sentiu aquele gostinho salgado e lembrou de sua própria infância, quando tinha vergonha de chorar e se escondia no armário do quarto. E depois ficava saboreando o sabor salgadinho, até que era bom!
Essa viagem à infância não ajudou muito. Não entendeu direito por que não se emocionou, ao contrário de quase todos – ou todos – os presentes. Mas tudo bem. O momento logo passou, as emoções passaram, e quase todos – ou todos – seguiram mais um ano sem chororô.
novembro 03, 2008
Morrer na praia
Já tive muitas vezes a sensação de morrer na praia.
Quando o Bush ganhou as eleições duas vezes.
Quando a Rosinha ganhou as eleições duas vezes.
Quando o Brasil perdeu a Copa para os franceses na final.
Quando o Felipe Massa perdeu o campeonato por uma curva.
Uma das mais frustrantes foi quando Gabeira perdeu as eleições para prefeito do Rio, na semana passada.
Que pelo menos Obama vença as eleições para presidente do mundo.
Já tive muitas vezes a sensação de morrer na praia.
Quando o Bush ganhou as eleições duas vezes.
Quando a Rosinha ganhou as eleições duas vezes.
Quando o Brasil perdeu a Copa para os franceses na final.
Quando o Felipe Massa perdeu o campeonato por uma curva.
Uma das mais frustrantes foi quando Gabeira perdeu as eleições para prefeito do Rio, na semana passada.
Que pelo menos Obama vença as eleições para presidente do mundo.
outubro 19, 2008
Antiguidades
No início da tarde, olhou em volta e percebeu que o céu estava branco. Pensou melancolicamente sobre o lugar onde estava. Embaixo do MASP, em cima das ruas de São Paulo. Caminhou pelo vão cheio de barraquinhas, com os mais diversos badulaques, que eles chamavam de "antiguidades". Observou as moedas com que comprava chicletes na infância, os brinquedos com os quais brincava, as latinhas de creme que com inveja via sua mãe usar. "Se são antiguidades, também sou". E talvez fosse.
Sentia-se uma antiguidade desde os 9 anos de idade, quando revelou aos amiguinhos que gostava de assistir ao jornal na TV e preferia as conversas ininteligíveis dos adultos a Carrossel.
No início da tarde, olhou em volta e percebeu que o céu estava branco. Pensou melancolicamente sobre o lugar onde estava. Embaixo do MASP, em cima das ruas de São Paulo. Caminhou pelo vão cheio de barraquinhas, com os mais diversos badulaques, que eles chamavam de "antiguidades". Observou as moedas com que comprava chicletes na infância, os brinquedos com os quais brincava, as latinhas de creme que com inveja via sua mãe usar. "Se são antiguidades, também sou". E talvez fosse.
Sentia-se uma antiguidade desde os 9 anos de idade, quando revelou aos amiguinhos que gostava de assistir ao jornal na TV e preferia as conversas ininteligíveis dos adultos a Carrossel.
setembro 11, 2008
Capítulo 3
Aquela cidade representava igualmente solidão e liberdade. Acolhimento e distância. Clichê que fosse, sua mais completa tradução era mesmo a música de Caetano.
Nada sentiu quando cruzou a Ipiranga e a São João. Lembrou-se apenas da Avenida Nossa Senhora de Copacabana, sem a praia a duas quadras dali.
O tempo a ensinaria a abandonar o ressentimento pela cidade cinza. Sentindo-se íntima, passaria a chamá-la de Sampa.
Admiraria sua organização caótica. Seria, então, impossível não pensar nos belos contrastes da cidade como uma Lapa amplificada.
"Em São Paulo as coisas acontecem", era o que Ana repetia e acreditava. Era por isso que estava ali.
A beleza de São Paulo não era óbvia como a do Rio de Janeiro, era uma beleza sutil. De repente, percebeu-se um homem do tipo mais ordinário, que não enxerga além de belas coxas e seios fartos, que não percebe que as mulheres mais bonitas escondem-se em detalhes.
Levaria bastante tempo para perceber tudo isso.
Naquele momento, Ana pensava que ter duas casas era como ter nenhuma. Era como sempre algo faltar. Era como nunca pertencer.
Aquela cidade representava igualmente solidão e liberdade. Acolhimento e distância. Clichê que fosse, sua mais completa tradução era mesmo a música de Caetano.
Nada sentiu quando cruzou a Ipiranga e a São João. Lembrou-se apenas da Avenida Nossa Senhora de Copacabana, sem a praia a duas quadras dali.
O tempo a ensinaria a abandonar o ressentimento pela cidade cinza. Sentindo-se íntima, passaria a chamá-la de Sampa.
Admiraria sua organização caótica. Seria, então, impossível não pensar nos belos contrastes da cidade como uma Lapa amplificada.
"Em São Paulo as coisas acontecem", era o que Ana repetia e acreditava. Era por isso que estava ali.
A beleza de São Paulo não era óbvia como a do Rio de Janeiro, era uma beleza sutil. De repente, percebeu-se um homem do tipo mais ordinário, que não enxerga além de belas coxas e seios fartos, que não percebe que as mulheres mais bonitas escondem-se em detalhes.
Levaria bastante tempo para perceber tudo isso.
Naquele momento, Ana pensava que ter duas casas era como ter nenhuma. Era como sempre algo faltar. Era como nunca pertencer.
setembro 07, 2008
Capítulo 2
Ana compartilhava com Garfield seu ódio às segundas-feiras. Talvez sua melancolia fosse maior nesses dias. A consciência de ser acordada em horário pré-determinado por outros era mais intensa no primeiro (ou segundo?) dia da semana.
Sempre chegava atrasada no trabalho. Se dissesse que não a incomodava o zum zum zum dos colegas quando aparecia quase 40 minutos depois do horário estabelecido, mentiria. Ao mesmo tempo sua vontade era gritar: “acordai, irmãos! Acordai, mas acordai na hora em que bem entendei, puta que pariu!”.
Contraditoriamente, seu senso de responsabilidade era muito forte, assim como seu orgulho. Talvez por isso seu chefe poucas vezes ousara fazer insinuações sobre o hábito marginal de chegar atrasada pelas manhãs. Ana algumas vezes lutou contra ele – o hábito -, mas quase sempre perdeu. E, depois, desistiu.
Era essa sua demonstração torta de marginalidade. Sua forma de mostrar que não era igual. Tola. Tola. Ela sabia. Sua dualidade era o desejo inseparável de pertencer e esnobar, de querer igualar-se e diferenciar-se com a mesma intensidade. Pensou em colocar aí a origem de sua melancolia, mas sabia que estaria sendo, mais uma vez, tola.
Na hora do almoço, gostava invariavelmente de companhia, especialmente de uma menina que conhecera no trabalho. Ela pouco, quase nada, tinha em comum com Ana.
Júlia era doce, tímida e triste. Sentia-se sempre menos. Ana tinha um sentimento maternal por Júlia. Admirava sua sensibilidade, embora tivessem gostos tão diferentes. Júlia não gostava de ler, era fã das comédias românticas americanas e adorava comprar roupas. Mas sabia as pessoas muito antes delas mesmas.
- Vamos descer?, ligou para Júlia.
- Vamos. Vou terminar de escrever um e-mail. A gente se encontra lá embaixo em 5 minutos, disse Júlia, desligando o telefone.
Quando Ana chegou ao lobby do prédio, Júlia já estava lá. Ela sempre chegava antes, nunca deixava ninguém esperando por ela. No íntimo, tinha um medo danado de ser esquecida.
- O Pedro não me ligou de novo. Não entendo o que está acontecendo.
Os homens de Júlia sempre a abandonavam aos poucos. Como se realmente deixassem de lembrar e, aos poucos, ela desaparecesse para eles.
Ana sentia uma tristeza por Júlia. Qual homem conseguiria ver por trás de suas distorções defensivas e a enxergaria realmente?
- Você também parece triste, Ana. Não fica não. A gente acaba se adaptando a tudo.
Júlia talvez tivesse razão, mas Ana sempre tivera dificuldade de adequar-se e, em São Paulo, essa falta parecia ainda maior.
No início, muita coisa a incomodava tremendamente em São Paulo. Sabia que muito era implicância, pura saudade de casa, recalque mesmo. Entretanto, nem tudo, nem tudo...
Começava pelo sotaque de uma parte dos paulistanos. Ao contrário de muita gente, não a incomodava o “r” caipira, quase americano, dos nativos do interior de São Paulo. Era o modo meio anasalado de falar, pronunciado especialmente por algumas “patricinhas” locais, que lhe dava arrepios.
O ar provinciano – pois é, dizia isso – de alguns paulistanos a surpreendeu. Essa mania de exibir o que têm, de só “freqüentar” determinados lugares “bem freqüentados”, por gente igual que só “freqüenta” os mesmos locais, essa mania era irritante demais para ela.
O cabelo liso da maioria das meninas, sempre de maquiagem, sempre de salto alto, sempre de bolsa-combinando-com-sapato, tudo isso a fazia sentir-se um peixe fora d’água.
Apesar de todas as críticas, tentava adaptar-se. Embora tenha se recusado a alisar os cabelos, comprou os tais sapatos de salto e adotou a maquiagem no dia-a-dia. Mas sempre achava que os outros perceberiam que não era ela ali atrás.
Ana compartilhava com Garfield seu ódio às segundas-feiras. Talvez sua melancolia fosse maior nesses dias. A consciência de ser acordada em horário pré-determinado por outros era mais intensa no primeiro (ou segundo?) dia da semana.
Sempre chegava atrasada no trabalho. Se dissesse que não a incomodava o zum zum zum dos colegas quando aparecia quase 40 minutos depois do horário estabelecido, mentiria. Ao mesmo tempo sua vontade era gritar: “acordai, irmãos! Acordai, mas acordai na hora em que bem entendei, puta que pariu!”.
Contraditoriamente, seu senso de responsabilidade era muito forte, assim como seu orgulho. Talvez por isso seu chefe poucas vezes ousara fazer insinuações sobre o hábito marginal de chegar atrasada pelas manhãs. Ana algumas vezes lutou contra ele – o hábito -, mas quase sempre perdeu. E, depois, desistiu.
Era essa sua demonstração torta de marginalidade. Sua forma de mostrar que não era igual. Tola. Tola. Ela sabia. Sua dualidade era o desejo inseparável de pertencer e esnobar, de querer igualar-se e diferenciar-se com a mesma intensidade. Pensou em colocar aí a origem de sua melancolia, mas sabia que estaria sendo, mais uma vez, tola.
Na hora do almoço, gostava invariavelmente de companhia, especialmente de uma menina que conhecera no trabalho. Ela pouco, quase nada, tinha em comum com Ana.
Júlia era doce, tímida e triste. Sentia-se sempre menos. Ana tinha um sentimento maternal por Júlia. Admirava sua sensibilidade, embora tivessem gostos tão diferentes. Júlia não gostava de ler, era fã das comédias românticas americanas e adorava comprar roupas. Mas sabia as pessoas muito antes delas mesmas.
- Vamos descer?, ligou para Júlia.
- Vamos. Vou terminar de escrever um e-mail. A gente se encontra lá embaixo em 5 minutos, disse Júlia, desligando o telefone.
Quando Ana chegou ao lobby do prédio, Júlia já estava lá. Ela sempre chegava antes, nunca deixava ninguém esperando por ela. No íntimo, tinha um medo danado de ser esquecida.
- O Pedro não me ligou de novo. Não entendo o que está acontecendo.
Os homens de Júlia sempre a abandonavam aos poucos. Como se realmente deixassem de lembrar e, aos poucos, ela desaparecesse para eles.
Ana sentia uma tristeza por Júlia. Qual homem conseguiria ver por trás de suas distorções defensivas e a enxergaria realmente?
- Você também parece triste, Ana. Não fica não. A gente acaba se adaptando a tudo.
Júlia talvez tivesse razão, mas Ana sempre tivera dificuldade de adequar-se e, em São Paulo, essa falta parecia ainda maior.
No início, muita coisa a incomodava tremendamente em São Paulo. Sabia que muito era implicância, pura saudade de casa, recalque mesmo. Entretanto, nem tudo, nem tudo...
Começava pelo sotaque de uma parte dos paulistanos. Ao contrário de muita gente, não a incomodava o “r” caipira, quase americano, dos nativos do interior de São Paulo. Era o modo meio anasalado de falar, pronunciado especialmente por algumas “patricinhas” locais, que lhe dava arrepios.
O ar provinciano – pois é, dizia isso – de alguns paulistanos a surpreendeu. Essa mania de exibir o que têm, de só “freqüentar” determinados lugares “bem freqüentados”, por gente igual que só “freqüenta” os mesmos locais, essa mania era irritante demais para ela.
O cabelo liso da maioria das meninas, sempre de maquiagem, sempre de salto alto, sempre de bolsa-combinando-com-sapato, tudo isso a fazia sentir-se um peixe fora d’água.
Apesar de todas as críticas, tentava adaptar-se. Embora tenha se recusado a alisar os cabelos, comprou os tais sapatos de salto e adotou a maquiagem no dia-a-dia. Mas sempre achava que os outros perceberiam que não era ela ali atrás.
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