dezembro 13, 2014

Não vejo mais literatura no metrô. E certamente não há poesia no escritório de um prédio velho da Paulista. Alguns podem dizer que a arquitetura do edifício é isso ou aquilo – inspirada num fulano japonês. Mas, para mim, é um prédio velho. E que mal há nisso?

Meu caminho é igual todos os dias. Sempre vejo a mesma estrofe de Fernando Pessoa na parede do Metrô, os mesmos bancos verdes com ranhuras, a mesma catraca, que agora é uma porta de vidro transparente e futurista, a mesma calçada cinza e sem graça, a mesma ascensorista que, ao molde dos anos 80, ouve Cindy Lauper num radinho,  os mesmos colegas, o mesmo som do teclado, as mesmas risadas, os mesmos bigodes, carecas, cabelos alisados...

E, mesmo assim, acho bom.  

Até Vinícius, que é vinícius, rejeitou um passarinho.

Então, agora declaro: quero andar de metrô e subir de elevador e teclar no computador e distribuir sorrisos e cumprimentos educados.


E não venham meter o nariz na minha janela.

novembro 24, 2013

Fortuna

Suas mãos não tremiam, mas o cérebro parecia inchado. Não pelo calor amazônico. Quando chamaram seu nome, e o Bispo estendeu a mão, tentou relembrar o que havia combinado consigo nas últimas semanas.

Desafiar o Bispo não era trivial para ela, que estava acostumada a dormir em redes, ver jacarés e piranhas no rio e comer tacacá bem quente, mesmo sob as altas e úmidas temperaturas dos trópicos.

Achava normal dividir a casa com seis irmãos e irmãs, os pais e a índia que cuidava dos afazeres domésticos, a mesma que, vítima dos afetos imprevistos, achou por bem olhar pela menina mais frágil da casa, pequena e magra. Uma mãe de sete costuma dividir a tarefa com os filhos mais velhos. Percebendo o espaço, a índia, a quem chamava de Dinda, resolveu ocupá-lo.

Não eram ricos, tampouco pobres. Havia roupas boas para todos e refeições fartas. Não apenas peixe. Uma vez por semana, comiam carne. Nos aniversários, cada um recebia uma moeda para comprar aquilo que quisesse – um sorvete, umas flores, um passeio de bonde, coisas assim.

O pai era uma mistura de ternura e severidade. “Comprou” a mãe quando a recém-moça completou 13 anos. Simplesmente se apaixonou. Nem a diferença de idade, de quase 20 anos, nem a juventude da moça foram capazes de contê-lo. Decidiu que juntaria dinheiro suficiente para casar com a bela morena egípcia.

O futuro sogro e a menina não ficaram muito felizes com a ideia da união em idade tão tenra, mas o sírio era teimoso, queria casar de toda forma, e não houve quem tirasse de sua cabeça a obsessão por Sultana (perfeita como supunha o nome), principalmente depois que conseguiu acordar um montante em ouro com a sogra – não que tivesse o valor naquele momento, mas sabia que, no Brasil, na Amazônia, era possível, pois mesmo o primo Mauricio, com suas limitações, tinha conseguido reunir valor ainda maior, então, certamente, não seria um problema para ele acumular a pequena fortuna e ter a sua companheira ideal.

Para desgosto da família, depois do casamento, ele decidiu deixar o Oriente Médio de vez e levar sua Sultana consigo.

Então, no meio da Amazônia, ela nasceu, a quarta dos sete irmãos. Seu nome, Fortuna.

Quando chegou a idade, a mãe achou seguro que as filhas estudassem em uma escola católica de freiras, mesmo sendo judeus. Não via com bons olhos os avançados colégios mistos.

Fortuna conseguiu lidar bem com a situação, era estudiosa e dedicada, a queridinha das freiras, que não costumavam passar dos limites ao lhe falar das virtudes do Salvador, e, a bem da verdade, ela gostava de escutar as histórias. Às vezes, até assistia à aula de religião, com a permissão das irmãs, sem rezar.

E assim passaram-se os anos de estudos até que chegou o esperado momento da formatura. Um dia, as freiras reuniram todas as alunas do último ano no pátio para contar a grande honra que a escola receberia naquele ano. As meninas que se formariam em 1943 eram privilegiadas e abençoadas. Ninguém menos que o Bispo estaria presente na cerimônia de entrega dos diplomas. As irmãs, então, detalharam os procedimentos que cada menina deveria seguir em respeito ao Bispo, à escola e à Igreja. Não apenas naquele dia, mas em todos os que restavam até a data do encerramento das atividades da escola, as irmãs não cansaram de repetir o protocolo a ser seguido. O principal: beijar o anel do Bispo, em sinal de respeito e fé.

Fortuna seria uma das primeiras, já que seu nome começava com F. Havia apenas Abelarda, Bernarda, Corina, Carola e Eduarda antes dela.

No momento em que as freiras anunciaram a presença do Bispo na cerimônia, sentiu a cabeça inchar. Sua mãe sempre contava histórias sobre o orgulho judaico, sobre heróis que preferiram a morte a se ajoelhar diante de uma imagem romana. Respeito não é subserviência, dizia Sultana.

A cada dia de aula, sentia sua mente chacoalhar mais. Não tinha liberdade para conversar com os adultos, nem seus pais, nem a Dinda, e as colegas – mesmo suas irmãs – não a entenderiam.

Ela teria que tomar a decisão sozinha: beijar ou não beijar o anel do Bispo?

A cerimônia começou com todas as meninas em fila. Ela era a sexta, depois de Abelarda, Bernarda, Corina, Carola e Eduarda. Vestia, como todas, meias brancas de algodão até o joelho, saia azul marinho no comprimento adequado, camisa social e uma gravata. Fortuna suava – o que parecia bem normal para um dia de dezembro na Amazônia.

Houve alguns discursos, inclusive do Bispo. Ela não entendeu uma palavra, mas ele falou sobre Jesus e sobre as meninas estarem preparadas para ser boas filhas e esposas. Os nomes começaram a ser chamados. Chegou o momento. A vez de Fortuna.

Ouviu seu nome. Caminhou até o local onde estava o Bispo. Olhou em seus olhos. Ele entregou o diploma. Ela sorriu. Ele estendeu a mão.

Ela tentou lembrar do que tinha combinado consigo. A mão não tremia, mas era como se seu cérebro estivesse inchado de tanta tensão. Seguiu seu plano: estendeu a mão de volta e cumprimentou o Bispo. Manteve o olhar firme e esperou pela reação.

O Bispo deu um sorriso e parabenizou a jovem, agora formada.

novembro 23, 2013

O Dilema de Clarice

As formigas miúdas e pretinhas subiram no bolo enfileiradas. Clarice acompanhou e tentou contá-las, mas eram muitas. Quando chegou em 17, ficou confusa. Não sabia se já tinha contado a de trás, parou para entender onde estava e, quando percebeu, a fila tinha andado bastante. Não conseguia mais reconhecer a formiga 17. 
 
Será que tem problema comer formiga? Alguém tinha explicado que essas pequenininhas eram até saudáveis e nutritivas. E não eram sujas como as baratas! Será? Como saber? Já tinha caído em tanta conversa de menino. Às vezes, eles mentiam muito bem. Inventavam uma história tão realista que era difícil não acreditar. Então, nunca sabia. Tentava olhar nos olhos – ouvira que era ali que se escondia a verdade – mas havia garotos que disfarçavam até os olhos!

Algumas das formigas carregavam grãos do bolo. Sua mãe ficaria chateada! É como se cada uma levasse um fubazinho. Huummm! Que delícia! E de nada adiantava os obstáculos que sua mãe colocava: um prato com água, um suporte elevado. Estas dificuldades apenas instigavam as formigas, que pareciam gostar do desafio. Claro, elas sempre venciam.

Comer ou não comer um pedaço daquele bolo, que, com ou sem formigas, exalava um aroma aconchegante? Agora, elas pareciam apenas grãozinhos pretos em meio aos amarelos, como granulados de brigadeiro. A mãe colocava desses de vez em quando no bolo - e até que ficava bom.

Clarice sentiu um peteleco atrás da orelha. Quando virou, seus óculos estavam tortos, graças a um movimento hábil de seu irmão. Clarice estava tão concentrada na questão do bolo e das formigas que nem viu o menino chegando. Com um gesto rápido, ele conseguiu deslocar os óculos e, em seguida, pegá-los e sair correndo com o troféu nas mãos e uma risadinha no rosto.

Agora, ela estava ali, diante do bolo e, incrivelmente, não via mais formigas. O bolo também já não era tão definido. Sentia apenas o cheiro doce, agora ainda melhor do que antes. Claro que sabia que era o mesmo bolo e, que, dificilmente, as formigas tivessem saído de lá junto com seu irmão.

Mas uma vez ouviu que quem vê cara não vê coração. Agora não via nem um nem outro. Clarice pegou a faca, cortou uma fatia bem generosa, levou à boca e sentiu umas coceguinhas leves e gostosas nos lábios e na língua. Ficou feliz porque, além de tudo, comeu um bolo mais nutritivo do que os outros.

outubro 23, 2012


Distância e Verdade

A distância tem um aspecto cruel. Às vezes faz parecer que algumas realidades não existem. Na velha lógica do "ver para crer", pode nos parecer que a Síria sem jornalistas não está sendo destruída pelo próprio ditador ou que a Islândia foi exterminada depois da crise financeira. Quantas vezes você não leu um artigo sobre um lugar pouco conhecido e pensou: será que é verdade?

É claro que o conceito de distância é relativo. Israel pode ser mais próximo de São Paulo do que uma aldeia indígena da Amazônia. Afinal, por aqui, parece (é só uma impressão, não verifiquei) que há mais notícias sobre o Oriente Médio do que sobre o Norte do Brasil. A repetição de notícias sobre um determinado lugar  também pode trazer essa sensação de proximidade e verdade.

Por isso, às vezes Hong Kong pode ser mais real do que o Amapá para algumas pessoas no mercado financeiro. Ou a Disney mais perto do que o Mato Grosso para alguns adolescentes de classe média.

Estas palavras não são uma crítica, já que é impossível conhecer tudo e acompanhar o que acontece no mundo inteiro. Apenas uma constatação. As redes sociais estão dando vida a uma triste notícia de um lugar distante: a morte de indígenas afastados de suas terras e tradições. Por que eu não sabia disso e agora é tão duramente real?

novembro 13, 2011

O Levante

Verinha de Alcântara era a mais exaltada. Do alto de seu Louboutin (da mais recente coleção, com a sola vermelha) não deixava uma pergunta sem resposta. Pelos seus ideais era capaz das discussões mais acirradas.

Orgulhava-se muito de seu temperamento sempre pronto para qualquer debate de alto nível. Não se conteve ao ouvir Laurinha de Albuquerque Menezes, sabidamente uma biscate sem berço, aceita no “Women in Politics” por generosidade do grupo, dizer que tinha medo de manifestações nas ruas. Repreendeu-a fortemente e não deu espaço para indagações.

Ora, ela, Verinha de Alcântara, já tinha feito vários cursos na Casa do Saber, já havia conversado com grandes nomes, como padre Marcelo Rossi, Fábio Melo, Gabriel Chalita. “Não podemos ter medo das massas!”, disse com o dedo em riste, unhas pintadas de Dragon, último lançamento da Chanel.

Laurinha abaixou a cabeça envergonhada, mas ainda tentou se defender. “Tenho medo. Imagina se estas pessoas se tornam agressivas...”, disse abaixando o tom a cada palavra. Maria Helena Amendoeira interrompeu: “Querida, somos mães e mulheres modernas e inteligentes. Nos encontramos aqui para discutir o futuro deste país! E o futuro do Brasil passa pela mobilização do povo”, explicou, bastante exaltada. “O que precisamos nos interrogar é: como? para quê?, entende?”, questionou.

Neste momento Verinha interveio. “Queria fazer um adendo. O problema é o ‘como’. ‘Para quê’ é simples. Precisamos combater a corrupção! Meu marido, o senador Alcântara - dispensa apresentações, claro -, sempre diz: o que mata este país é a corrupção! O Brasil tem tantas riquezas, tem tanta natureza! E a água! No futuro, a água valerá mais do que ouro. Isso sem falar nas pessoas, que são o coraç...”, virou-se ao perceber que tinha alguém ao seu lado.

“O que você quer, Maria? Não quero café agora, querida. Pode ir.” “Meu nome é Sônia”, disse a empregada, mas já era tarde. Verinha continuou seu discurso, defendendo a mobilização das massas, com o fim principal de eliminar a corrupção de uma vez por todas neste país. Propôs que cada uma das mulheres procurasse angariar o maior número de pessoas para a causa. Esclareceu que era fundamental a participação de todas.

Após o longo discurso, as presentes aplaudiram. E, então, Laurinha, para mudar os rumos da conversa - já estava ficando pesada com toda esta coisa de política -, perguntou ao repórter enviado por um jornal, que acompanhava as discussões em silêncio: “e a ocupação da USP por alunos? Quais são as novidades?”.

 O jornalista ia responder, mas não houve tempo. “Um absurdo!”, Verinha gritou. “É tudo orquestrado. Isso é coisa destes sem-terra, sem-teto, sem-vergonha, mafiosos fazendo futrica com falsos estudantes.” Maria Helena, por fim, decretou: “a polícia deveria ter sido mais incisiva! Deveria ter usado bombas de efeito moral, para deixá-los bem quietinhos”.

Após algumas colocações pertinentes das mais relevantes participantes do grupo, todas trocaram beijinhos e despediram-se. Era hora de ir, afinal, quase todas tinham ainda uma longa agenda de compromissos durante o dia.

*Baseado em notícia publicada na Folha de São Paulo: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1011201111.htm

outubro 31, 2011

“The Clock, 24 Hours”


Não tinha relógio por perto, quando ele me puxou desprevenida. Não sabia as horas. Vestidos de calça jeans e camiseta, entramos no espaçoso hall iluminado, de pé direito altíssimo, em que personagens de um filme do Woody Allen riam, tagarelavam e bebiam prosecco, com seus trajes de gala. Sem graça no início, logo percebi que éramos quase invisíveis naquele mundo. Era como se tivéssemos ultrapassado um portal inexistente para outra dimensão. Ele me olhou com seu melhor olhar e, mais uma vez, me puxou, desta vez em direção às escadas daquele renovado casarão em Veneza. Antes de subir, uma placa dizia “The Clock, 24 Hours” e outras coisas que não me lembro mais. Subimos, dando risadas e trocando olhares cúmplices. Ao chegar, a mágica se revelou: um cinema belo e improvisado. Algumas pessoas assistiam, outras se levantavam e iam embora, mulheres de longo ou curtíssimo, homens de terno e, alguns, de chapéu. Sentamos. Numa tela, cenas aparentemente desconexas, mas lindamente editadas, mostravam relógios. O relógio de James Bond marcava meia-noite e sete minutos. Dois minutos depois, o relógio de Benjamin Button mostrava meia-noite e nove minutos. No de Orson Welles eram meia-noite e treze. O de Woody Allen exibia meia-noite e quinze. “Que horas são?”, perguntei. “Meia-noite e quinze”, ele me disse, surpreso. Ficamos boquiabertos assistindo àquela inacreditável obra, resultado de muita paciência e de uma certa obsessão. Nunca tinha reparado que os filmes eram tão fartos em relógios e horários. Muito menos tinha imaginado que o próprio cinema poderia se transformar em um relógio. Queríamos esperar o fim e achamos muito mal-educados aqueles que se levantavam no meio do filme. Ali ficamos até uma da manhã - horário exibido na tela num Hitchcock -, quando tomamos coragem de voltar ao mundo real (é permitido chamar Veneza de mundo real?). Descemos as escadas e retomamos a placa. “The Clock, 24 Hours”. Em seus infinitos ciclos, o filme não tinha fim. E essa foi minha primeira experiência na Bienal.

outubro 24, 2011

Feliz começo de Patrícia Quitanda

Patrícia Quitanda. Nascida de classe média alta. Neta de avó e avô, filha de mãe e pai, irmã de irmão. 

O sr. Quitanda Junior, homem de muitas responsabilidades, não pôde estar presente no parto da filha, por motivo de grande importância. Era o dia da reunião com o homem mais poderoso  da multinacional de que era gerente pré-senior. Foi um momento decisivo em sua carreira de executivo fundamental para o andamento da empresa. Sem ele, a firma teria faturado  732.573.853,08 cruzados menos no ano de 1983, segundo estimativa do próprio sr. Quitanda Junior.

A sra. Quitanda Junior esteve presente no parto da filha. Meses depois, de volta ao cargo de jornalista especializada na seção Mulher de importante jornal concorrente direto do líder de circulação na cidade do Rio de Janeiro, deixou a menina sob os cuidados da sra. Quitanda. Seu mais relevante feito, realizado no plantão de domingo pela manhã, foi a cobertura da tragédia da enchente de 1985, até que sua colega responsável por Cidades pudesse comparecer ao local. Se não fosse a sua presença no horário exato em que um bombeiro retirou uma velha senhora de cima de um carro ilhado, a cobertura da enchente de 1985 teria sido mais pobre, de acordo com a própria sra. Quitanda Junior.

O sr. e a sra. Quitanda Junior, chefes de tradicional e unida família no Rio de Janeiro, criaram Patrícia e Ricardo nos mais elevados padrões de conforto e acesso. As duas crianças estudaram em um dos mais caros colégio da cidade. Pena que Patrícia não aproveitou como Ricardo, coitada. Ela tinha muitas dificuldades, coitada.

Ricardo, importante executivo de multinacional, comprou apartamento próprio aos 32 anos.

Patrícia, sem função definida no mundo, foi morar em Belo Horizonte.

outubro 18, 2011

Conto

Eu tenho um conto escrito numa manhã de sol. E tenho um conto escrito numa tarde de chuva. O conto da manhã de sol é igual ao da tarde de chuva.

outubro 09, 2011

Desnuvem


Às 20h31min cheguei do trabalho. Às oito horas e trinta e dois minutos e sete segundos, um gesto dele mudou a história daquele instante. Se, antes, o orgulho ainda armadurava meus órgãos frágeis, passado aquele gesto, o empafioma quase crônico foi curado. Numa fração de tempo anterior ao gesto, o pesado som do cinza ainda penetrava pelas paredes rígidas da casa. Mas, no momento seguinte, a vida passava a ser um petit gateau com recheio quente de chocolate e sorvete de pistache.

Às 20h31min cheguei do trabalho. Abri a porta, vi as mãos dele grandes e protetoras. O iminente contato era um pensamento distante, pois eu ainda carregava a tempestade, a mochila pesada dos compromissos, os sapatos de peixe apodrecido, as fagulhas da pressa, as partículas de pólvora. Às oito horas e trinta e dois minutos e sete segundos, relâmpagamente, ele me transformaria.

Às 20h31min cheguei do trabalho. Abri a porta. Ele ouvia Chopin. Com um sorriso, dizia, “escuta!, um noturno de Chopin jamais poderia ser às dez da manhã”. Mas eu ainda levava comigo a dureza das buzinas, dos freios dos coletivos, dos raios de sol, das árvores ressecadas. Às oito horas e trinta e dois minutos e sete segundos, um semitom suavizaria a melodia.

Às 20h31min cheguei do trabalho. Os olhos dele eram Chaplin, espelhos d’água que refletiam cubos de açúcar e café quentinho. Mas eu ainda mantinha unhas pintadas, tailleur bem cortado, meias grudadas, chapinha e pés de agulha. Às oito horas e trinta e dois minutos e sete segundos, um frame daria início a um novo filme.

Às 20h31min cheguei do trabalho. Ele era gramado verde, suor, pós-chuva, lírio, maresia, chiclete de tutti-frutti, bebê, feijoada, manjericão, livro novo. Mas eu ainda guardava em mim, por um último instante, pedras pesadas, carro velho, motor a diesel, gás carbônico, querosene.

Aí, ele se aproximou, com toda a almofadidade de suas mãos, o laguismo de seus olhos, a casebridade de sua música, seu cheiro de homem e seu sabor. E, com um único gesto dele, morreu tudo o que era desalmofada, deslagoa, anticasa, desomem, insosso.

Às oito horas e trinta e dois minutos e sete segundos, na noite de São Paulo, o beijo dele foi desnuvem.

*Texto-exercício para o curso de Escrita Criativa, da Casa do Saber, com a prof. Noemi Jaffe. Os neologismos foram criações coletivas, inclusive a desnuvem.

junho 20, 2011

Uma viagem ao centro da Terra

Muitos vão me criticar quando souberem o tema deste texto e sua relação com o título. Não, o assunto não é Júlio Verne. É Europa. Por anos li textos na faculdade que criticavam o “eurocentrismo” – esta mania de achar que a Europa é o centro do mundo. Pois nas últimas semanas decidi embarcar nesta fantasia. E foi uma delícia.

Para começar, passei as últimas três semanas entre Itália e Grécia, justamente as regiões popularmente conhecidas como berços da “civilização judaico-cristã ocidental” (como diria Agamenon, o casseta, não o grego).

Por coincidência, durante a viagem, caiu em minhas mãos um livrinho maravilhoso, chamado “Uma breve história do mundo”. O autor é E. H. Gombrich, aquele mesmo de “A História da Arte”. Aliás, foi por causa do autor que comprei o livro. Estava no Palácio Pitti, em Florença, na lojinha sempre presente ao final dos museus europeus, e dei de cara com o título em inglês. Em minha ignorância, fiquei curiosa para saber o que mais (Sir) Gombrich havia escrito na vida (bem, o prefácio do livro deixou bem clara minha ignorância).

Gombrich escreveu a obra nos anos 30, aos 26 anos, em seis semanas! Na época, havia terminado o doutorado, estava desempregado e um amigo solicitou-lhe a tradução de um livro infantil sobre a história do mundo. Ele leu e disse ao amigo que poderia escrever algo melhor. Não tenho dúvidas de que o fez. Foi seu primeiro livro.

“Uma breve história do mundo” é uma obra para crianças (ou infanto-juvenil), mas talvez por isso mesmo seja tão boa. É um livro despretensioso e apaixonado, perfeito para o clima das férias. E, de forma alguma, Gombrich trata seu leitor com excessiva superficialidade ou maniqueísmo. Ao contrário, seu objetivo é despertar no leitor o desejo de aprofundamento em cada uma das histórias narradas.

E o que isso tem a ver com a viagem ao centro da Terra? Bem, se considerássemos o livro como referência, 75% da história do mundo teria se passado na Europa. O restante poderia ser dividido, em ordem de importância, entre Oriente Médio, China, Estados Unidos, Índia, América espanhola, Japão e outros (portugueses têm uma breve menção e o Brasil, nenhuma).

Mas eu estava na Europa, no berço da civilização – Gombrich dedica boa parte do livro a Grécia e Roma – navegando no mundo eurocêntrico. E realmente, para mim, parecia que estava no centro do mundo. Todas aquelas camadas arqueológicas e artísticas, uma sobre a outra, uma ao lado da outra, na rua, nos museus, nos hotéis, nos restaurantes, nos palácios. Os espaços públicos magistralmente ocupados. Os deslocamentos fáceis. A beleza das ruas.

Optei pelo encantamento, tanto nos passeios quanto na leitura.

maio 01, 2011

Meu pai

Duplo de Brahms. OSB e os solistas Michel Bessler e Antônio Del Claro.

maio 03, 2010

Livro Imperdível

Li na faculdade, mas sempre vale ao menos uma rápida visita.

"No plano ideológico pelo menos, tentamos combinar aquilo que nos parece ser o melhor (...): queremos igualdade sem que ela acarrete a identidade; mas também a diferença, sem que ela degenere em superioridade/inferioridade; esperamos colher os benefícios do modelo igualitarista e do modelo hierárquico; aspiramos à recuperação do sentido social, sem perder a qualidade do individual" - Tzvetan Todorov (A Conquista da América)

maio 01, 2010

Filha da História

Filha do conturbado século XX. Filha das imigrações forçadas, das grandes guerras.

Bisavó egípcia. Avô alemão. Avó amazonense. Mãe israelense. Pai carioca. A história não poupa ninguém.

outubro 19, 2009


Noturno


Triste como a quase pureza da alvorada, que consome a névoa e dilui e seca o orvalho. Traz a dura luz do dia, esquece a poesia, ouve os carros, inala o gás carbônico, come o enlatado. É sol do meio-dia. Derrete os miolos. Produz suor, exala o sebo.

A noite é poética. A lua. As estrelas escondidas.

Um noturno de Chopin nunca seria às 10 horas da manhã.

agosto 09, 2009

Múltiplos Interesses

Meus múltiplos interesses me incomodam. Não é possível que quase tudo possa ser interessante. Dave haver um único grande assunto, que desperte a minha paixão.

Adoro documentários! Mas também gosto de outras formas de cinema. Filmes me fascinam. Por outro lado, adoraria conhecer mais a história da arte e a arte contemporânea. Queria saber mais sobre música, especialmente jazz e música clássica.

São tantos filósofos e eu não li praticamente nada sobre o assunto. Um livrinho aqui, outro ali. Nada que me permitisse entender o pensamento filosófico com profundidade. O mesmo vale para história. Literatura é outro tema que me fascina. Quero ler os clássicos. Todos! Mas estou muito, muito, muito longe disso. Mesmo porque sempre acabo lendo outros livros, bem distantes dos cânones.

Outro tema que me atrai é psicanálise. Descontando o fato de eu frequentar o consultório de um analista toda semana, entendo pouco do assunto. Queria também fazer um curso de fotografia.

Até mesmo bancos, contabilidade, mercado financeiro, análise de balanços são temas capazes de prender minha atenção. Fui capaz de fazer um MBA sobre isso. Trabalho com isso. Aliás, no trabalho, um assunto que tem me chamado a atenção é macroeconomia. Outro de que sei pouco e acho que deveria saber mais.

Dia desses, me peguei lendo um livro sobre Einstein. Queria tentar entender um pouco da Relatividade. Confesso que aí acho que fui um pouco longe demais. Alguns temas simplesmente são demais para minha cabeça. Mas acho que deveria estudar um pouco mais de matemática e estatística, de qualquer forma.

Mas, quando penso nestas coisas, tento lembrar: Nira, você precisa se concentrar em um assunto. Senão, sabe sempre um pouco de tudo, mas não sabe nada realmente, com profundidade. Sou uma generalista. Queria entender algum assunto profundamente. Mas qual? Como escolher, diante de um mundo tão vasto e interessante?

agosto 07, 2009

Teletransporte

Adorei a definição de teletransporte no Wikipedia:

O teletransporte ou teleporte é o processo de moção de objetos de um lugar para outro, em curto espaço de tempo, sem a passagem pelo espaço intermediário. (Ver transporte). O teletransporte ainda é restrito ao campo de ficção científica e da ciência especulativa.

Esta definição clarifica dois pontos importantes para mim, quando o assunto é teletransporte:

1 - Ele é o máximo! Permite ir de um lugar para outro "sem a passagem pelo espaço intermediário", o que significa ir de São Paulo para o Rio sem passar pelo céu, por uma estrada, nem mesmo por trilhos. Simplesmente, chega-se. Nada de espera em aeroporto, transito infernal, turbulência, motoristas malucos. Eu poderia simplesmente trabalhar em São Paulo e, de repente, parar em um quiosque em frente a praia de Copacabana. Tudo num piscar de olhos.

2 - A segunda constatação é extremamente frustrante e seja quem escreveu o texto no Wikipedia teve algo de cruel. "O teletransporte ainda é restrito ao campo de ficção científica e da ciência especulativa." O Wikipedia pode ser um demolidor de sonhos.

junho 25, 2009

Quem de dentro de si não sai
Vai morrer sem amar ninguém

Vinícius de Moraes

A Outra

Ontem assisti a um filme da fase dramática de Woody Allen: "A Outra" (Another Woman). Lindíssimo. Muito psicanálitico, acompanha a história de uma mulher (Marion) que, em seus cinqüenta e poucos anos, percebe que deixou-se fechar para os sentimentos, tornando-se fria e distante das pessoas. Ela apenas percebe isso ao começar a ouvir, por acidente, as consultas de uma jovem grávida com o psicanalista do escritório ao lado do seu.

O filme ainda é da fase Mia Farrow, que interpreta a jovem angustiada (pois é, o filme é antigo). A protagonista é Gena Rowlands.

É interessante como, por meio de sonhos e de confissões de pessoas próximas, Marion percebe que fez escolhas por demais racionais em sua vida, deixando os sentimentos de lado. Em uma cena, ela lembra que aos vinte e poucos anos engravidou do então marido, mas decidiu abortar. Abortou, por medo da ligação e do sentimento que teria pelo bebê. Suas relações com todos a sua volta são superficiais: com o marido (nunca fica sozinha com ele), com o irmão, com o pai. Sempre evita assuntos "inadequados" e age sempre de acordo com o supostamente "correto", fugindo de situações de conflito ou constrangedoras. Ao mesmo tempo, ela é intelectualmente brilhante e admirada.

Enfim, um excelente filme para ver em casa, pensativo.

Como em todo Woody Allen, a música é maravilhosa. Um exemplo aí embaixo.

maio 31, 2009

Endorfina

Ana correu em direção a um autismo há algum tempo esquecido. Em cima da esteira parecia que o tempo se repetia. Movimentos e sons monótonos a levavam a seu interior. Ouvia o ritmo pesado de seu tênis sobre o chão em movimento.

A televisão a sua frente nada dizia. Ali, parecia que assistia a uma outra televisão enquanto corria absorta em pensamentos abstratos. O mundo lhe parecia mais exterior do que nunca. Ela era a única espectadora de um cinema gigantesco, com milhões de dimensões, que observava encantada.

Nas bicicletas paradas, as pessoas pareciam flutuar em câmera lenta. Os homens fortes urrando gritos guturais levantavam pesos pesadíssimos como num doce ballet. Na sala de ginástica as moças levitavam sobre camas elásticas, em lentos movimentos delicados. Nos aparelhos desajeitados, acrobatas realizavam movimentos doidos.

Naquele momento, alguém postou-se à frente da esteira. Ana não viu. Alguns minutos passaram até que percebesse a presença de uma moça movendo os lábios vagarosamente. Levou um tempo até que conseguisse escutar o que dizia:

- Ana, você está me ouvindo?

Era Felipa. Colega do trabalho. Fazia ginástica na mesma academia. E riu quando percebeu a ausência presente de Ana.

- Você estava viajando.
- Pois é. Estava mesmo. Tudo bem?
- Tudo. Estou gostando de ver sua presença na academia.

Ana sempre foi avessa a academias de ginástica. Mas também odiava ficar parada. De repente viu-se quase sem alternativas. E agora corria quase todos os dias em uma esteira eletrônica, com uma TV à frente. Achava aquele ambiente um tanto surrealista, com seus aparelhos e movimentos repetidos e organizados. Havia algo de fordiano, de Tempos Modernos, numa academia. E entrou naquela engrenagem gigante do filme de Chaplin até se acostumar. E mesmo gostar. Numa viagem louca no mesmo lugar.

maio 25, 2009

O Documentário de João

O documentário Nelson Freire é uma experiência. Não quer explicar. Não quer necessariamente informar.

Quer que o espectador sinta - exatamente como a música faz.

Tal como o músico que mal consegue se expressar com palavras - porque não precisa - o filme transmite emoção por imagem, som e silêncio. Fotografia, montagem e música. É sensorial e não racional.

Gostei muito do filme na primeira vez que vi. Mas só agora, ouvindo o João Moreira Salles falar, entendi o porquê.

maio 24, 2009

Artaud

Li em um excelente artigo de Arnaldo Jabor:

"A arte não é a imitação da vida. A vida é que é a imitação de alguma coisa transcendental com que a arte nos põe em contato", Antonin Artaud.

O artigo é genial. Recomendo a leitura.