outubro 19, 2009


Noturno


Triste como a quase pureza da alvorada, que consome a névoa e dilui e seca o orvalho. Traz a dura luz do dia, esquece a poesia, ouve os carros, inala o gás carbônico, come o enlatado. É sol do meio-dia. Derrete os miolos. Produz suor, exala o sebo.

A noite é poética. A lua. As estrelas escondidas.

Um noturno de Chopin nunca seria às 10 horas da manhã.

agosto 09, 2009

Múltiplos Interesses

Meus múltiplos interesses me incomodam. Não é possível que quase tudo possa ser interessante. Dave haver um único grande assunto, que desperte a minha paixão.

Adoro documentários! Mas também gosto de outras formas de cinema. Filmes me fascinam. Por outro lado, adoraria conhecer mais a história da arte e a arte contemporânea. Queria saber mais sobre música, especialmente jazz e música clássica.

São tantos filósofos e eu não li praticamente nada sobre o assunto. Um livrinho aqui, outro ali. Nada que me permitisse entender o pensamento filosófico com profundidade. O mesmo vale para história. Literatura é outro tema que me fascina. Quero ler os clássicos. Todos! Mas estou muito, muito, muito longe disso. Mesmo porque sempre acabo lendo outros livros, bem distantes dos cânones.

Outro tema que me atrai é psicanálise. Descontando o fato de eu frequentar o consultório de um analista toda semana, entendo pouco do assunto. Queria também fazer um curso de fotografia.

Até mesmo bancos, contabilidade, mercado financeiro, análise de balanços são temas capazes de prender minha atenção. Fui capaz de fazer um MBA sobre isso. Trabalho com isso. Aliás, no trabalho, um assunto que tem me chamado a atenção é macroeconomia. Outro de que sei pouco e acho que deveria saber mais.

Dia desses, me peguei lendo um livro sobre Einstein. Queria tentar entender um pouco da Relatividade. Confesso que aí acho que fui um pouco longe demais. Alguns temas simplesmente são demais para minha cabeça. Mas acho que deveria estudar um pouco mais de matemática e estatística, de qualquer forma.

Mas, quando penso nestas coisas, tento lembrar: Nira, você precisa se concentrar em um assunto. Senão, sabe sempre um pouco de tudo, mas não sabe nada realmente, com profundidade. Sou uma generalista. Queria entender algum assunto profundamente. Mas qual? Como escolher, diante de um mundo tão vasto e interessante?

agosto 07, 2009

Teletransporte

Adorei a definição de teletransporte no Wikipedia:

O teletransporte ou teleporte é o processo de moção de objetos de um lugar para outro, em curto espaço de tempo, sem a passagem pelo espaço intermediário. (Ver transporte). O teletransporte ainda é restrito ao campo de ficção científica e da ciência especulativa.

Esta definição clarifica dois pontos importantes para mim, quando o assunto é teletransporte:

1 - Ele é o máximo! Permite ir de um lugar para outro "sem a passagem pelo espaço intermediário", o que significa ir de São Paulo para o Rio sem passar pelo céu, por uma estrada, nem mesmo por trilhos. Simplesmente, chega-se. Nada de espera em aeroporto, transito infernal, turbulência, motoristas malucos. Eu poderia simplesmente trabalhar em São Paulo e, de repente, parar em um quiosque em frente a praia de Copacabana. Tudo num piscar de olhos.

2 - A segunda constatação é extremamente frustrante e seja quem escreveu o texto no Wikipedia teve algo de cruel. "O teletransporte ainda é restrito ao campo de ficção científica e da ciência especulativa." O Wikipedia pode ser um demolidor de sonhos.

junho 25, 2009

Quem de dentro de si não sai
Vai morrer sem amar ninguém

Vinícius de Moraes

A Outra

Ontem assisti a um filme da fase dramática de Woody Allen: "A Outra" (Another Woman). Lindíssimo. Muito psicanálitico, acompanha a história de uma mulher (Marion) que, em seus cinqüenta e poucos anos, percebe que deixou-se fechar para os sentimentos, tornando-se fria e distante das pessoas. Ela apenas percebe isso ao começar a ouvir, por acidente, as consultas de uma jovem grávida com o psicanalista do escritório ao lado do seu.

O filme ainda é da fase Mia Farrow, que interpreta a jovem angustiada (pois é, o filme é antigo). A protagonista é Gena Rowlands.

É interessante como, por meio de sonhos e de confissões de pessoas próximas, Marion percebe que fez escolhas por demais racionais em sua vida, deixando os sentimentos de lado. Em uma cena, ela lembra que aos vinte e poucos anos engravidou do então marido, mas decidiu abortar. Abortou, por medo da ligação e do sentimento que teria pelo bebê. Suas relações com todos a sua volta são superficiais: com o marido (nunca fica sozinha com ele), com o irmão, com o pai. Sempre evita assuntos "inadequados" e age sempre de acordo com o supostamente "correto", fugindo de situações de conflito ou constrangedoras. Ao mesmo tempo, ela é intelectualmente brilhante e admirada.

Enfim, um excelente filme para ver em casa, pensativo.

Como em todo Woody Allen, a música é maravilhosa. Um exemplo aí embaixo.

maio 31, 2009

Endorfina

Ana correu em direção a um autismo há algum tempo esquecido. Em cima da esteira parecia que o tempo se repetia. Movimentos e sons monótonos a levavam a seu interior. Ouvia o ritmo pesado de seu tênis sobre o chão em movimento.

A televisão a sua frente nada dizia. Ali, parecia que assistia a uma outra televisão enquanto corria absorta em pensamentos abstratos. O mundo lhe parecia mais exterior do que nunca. Ela era a única espectadora de um cinema gigantesco, com milhões de dimensões, que observava encantada.

Nas bicicletas paradas, as pessoas pareciam flutuar em câmera lenta. Os homens fortes urrando gritos guturais levantavam pesos pesadíssimos como num doce ballet. Na sala de ginástica as moças levitavam sobre camas elásticas, em lentos movimentos delicados. Nos aparelhos desajeitados, acrobatas realizavam movimentos doidos.

Naquele momento, alguém postou-se à frente da esteira. Ana não viu. Alguns minutos passaram até que percebesse a presença de uma moça movendo os lábios vagarosamente. Levou um tempo até que conseguisse escutar o que dizia:

- Ana, você está me ouvindo?

Era Felipa. Colega do trabalho. Fazia ginástica na mesma academia. E riu quando percebeu a ausência presente de Ana.

- Você estava viajando.
- Pois é. Estava mesmo. Tudo bem?
- Tudo. Estou gostando de ver sua presença na academia.

Ana sempre foi avessa a academias de ginástica. Mas também odiava ficar parada. De repente viu-se quase sem alternativas. E agora corria quase todos os dias em uma esteira eletrônica, com uma TV à frente. Achava aquele ambiente um tanto surrealista, com seus aparelhos e movimentos repetidos e organizados. Havia algo de fordiano, de Tempos Modernos, numa academia. E entrou naquela engrenagem gigante do filme de Chaplin até se acostumar. E mesmo gostar. Numa viagem louca no mesmo lugar.

maio 25, 2009

O Documentário de João

O documentário Nelson Freire é uma experiência. Não quer explicar. Não quer necessariamente informar.

Quer que o espectador sinta - exatamente como a música faz.

Tal como o músico que mal consegue se expressar com palavras - porque não precisa - o filme transmite emoção por imagem, som e silêncio. Fotografia, montagem e música. É sensorial e não racional.

Gostei muito do filme na primeira vez que vi. Mas só agora, ouvindo o João Moreira Salles falar, entendi o porquê.

maio 24, 2009

Artaud

Li em um excelente artigo de Arnaldo Jabor:

"A arte não é a imitação da vida. A vida é que é a imitação de alguma coisa transcendental com que a arte nos põe em contato", Antonin Artaud.

O artigo é genial. Recomendo a leitura.

maio 16, 2009

Simonal

Acabei de assistir ao documentário sobre o Wilson Simonal, "Ninguém sabe o duro que dei". Recomendo fortemente. Vale pela história, pela excelente pesquisa e pela música. A edição é bem feita, criando uma narrativa envolvente. A vida de sucesso e decadência de Wilson Simonal é contada através de depoimentos, linearmente, e a vida de Wilson Simonal é fascinante.

Para quem não sabe, ele não foi apenas o pai do Simoninha e do Max de Castro. Foi um dos cantores de maior sucesso no Brasil da década de 60, início de 70. As imagens mostradas no documentário são impressionantes, especialmente aquela em que o cantor rege um coro de 30 mil (ou 40 ou 50) pessoas no Maracanã.

Simonal impressiona não apenas por isso, mas também por suas qualidades como cantor. Com suingue, com emoção, com técnica, com carisma. É quase inacreditável que um único grande erro em sua vida o tenha levado ao ostracismo.

Vale a pena assistir nem que seja apenas para ouvir a música ou apenas para conhecer a história deste homem ou apenas para ver como poder ser cruel julgar e condenar alguém a penas perpétuas.

Apesar de o filme ter alguns problemas técnicos, vale muito a pena. Não sei o que houve na captação das entrevistas, mas algumas imagens dos depoimentos ficaram estranhas. Nada que comprometa o filme.

Um pouco de Simonal, para dar o gostinho:

maio 06, 2009

O que é traição?

Traição. O que é traição? É o sexo? Não sei. Me parece que pior do que a traição do sexo é a traição da amizade, a traição da confiança, a traição do respeito.

Traição é a sensação terrível de perder o chão. É a decepção seguida de raiva, seguida de resignação. Em alguns casos, seguida de vingança.

Traição é o fim da ingenuidade. É o fim de algumas crenças. É dormir com o olho aberto. É esquecer os bons momentos e transformá-los em análises.

Traição. O que é traição? Não sei. Estou descobrindo.

abril 23, 2009

Memória

A memória é mesmo uma coisa muito louca.

Outra dia meu pai estava todo feliz, porque leu em alguma revista do cabelereiro que não lembrar de tudo é importante para a inteligência ou algo assim. Isso porque a lembrança ocuparia uma parte importante do seu cérebro.

Obviamente meu pai é um cara esquecido.

Bem, isso foi só um nariz de cera para contar que não lembro do momento em que escrevi o texto do post anterior, aí embaixo.

Um dia, entrei no editor do blog (publisher, sei-lá como chama) e lá estava o texto entre os rascunhos. Segundo o Blogger, eu o havia escrito uma semana antes. E simplesmente não lembrava. Não lembro, na verdade. Quando escrevi? Por que escrevi? Como assim, "quem tucanou a Madonna?"... Que viagem!

O fato é que escrevi, porque só eu tenho a senha do blogger... Então, publiquei. Publiquei e assinei um texto que não lembro de ter escrito, simplesmente porque tudo indica que fui eu que escrevi.

Mas, a memória é uma coisa muito louca, não é não?

abril 22, 2009

Mistérios

Quem matou Laura Palmer?
Quem matou Odete Roitman?
E Baby Jane?

Quem sequestrou o Michael Jackson?
Quem tucanou a Madonna?
Quem inchou o Maradona?

Quem comeu a chapeuzinho?
Ou seria a vovozinha?
Que comeu o Lobo Mau?

Quem viu o Equador?
Passeou pela Nova Guiné?
Ou jantou na Mauritânea?

Quem? Quem?
Eu pergunto:
Quem?

abril 19, 2009

Nietzsche

Há uma exuberância da bondade que pode parecer maldade.

abril 01, 2009

To be or not to be?

Por que o João Moreira Salles nunca fez um documentário sobre a elite brasileira?

março 22, 2009

Bons curtas disponíveis na net

O Porta-Curtas é um site bacana que exibe alguns filmes às vezes não encontrados nem no YouTube.

Incluí aqui dois links que valem a pena.

O primeiro é um documentário muito legal sobre a morte da personagem Rê Bordosa. O mais divertido é que o doc é uma animação.

Dossiê Rê Bordosa

O segundo curta já é um clássico. Filmaço. Sempre vale rever.

Ilha das Flores

março 04, 2009

Arnaldo Antunes

A gente não quer só comida.
A gente quer comida, diversão e arte.

março 02, 2009

Cinema é a maior diversão

Até o momento, vi apenas dois dos filmes que concorreram à categoria principal do Oscar: Quem quer ser um milionário e O curioso caso de Benjamin Button. Gostei dos dois, mas em graus imensamente diferentes. Minha preferência é certamente pelo segundo filme.

O primeiro é divertido. A história se passa numa Índia diferente daquela que costumamos ver no cinema: mais ou menos o que Cidade de Deus fez com o Rio de Janeiro.

Parênteses: vi algumas pessoas comparar Cidade de Deus e Quem quer ser um milionário. Não vejo semelhanças. O brasileiro é infinitamente mais criativo e original, características que faltam ao filme indo-americano. Do roteiro à fotografia, passando pela edição e direção, Cidade de Deus está em outro patamar cinematográfico. Fecha parênteses.

A película de Danny Boyle é divertida, mas não tem nenhuma profundidade. A história é até um pouco boba. O mais interessante do filme é a paisagem e os personagens, o lado antropológico da obra, mostrando um pouco da vida dos indianos menos favorecidos. Nada que mereça um batalhão de prêmios.

É até com alguma tristeza que constato isso, já que Danny Boyle dirigiu um dos melhores e mais originais filmes que já assisti: Trainspotting.

Do outro lado da balança, gostei muito de Benjamin Button. Já li diversas críticas negativas ao filme, mas discordo totalmente delas. Acho o filme muito sensível, adorei a atuação da Cate Blanchett, a fotografia é extremamente cuidadosa, os personagens interessantes... Até os efeitos especiais são usados de uma forma que gostei bastante, incorporando-se inteiramente à história e aos atores. Benjamin é muito emotivo e gosto de filmes que conseguem tocar a emoção desta forma. Uma linda fábula.

Ainda faltam alguns filmes, que pretendo assistir nas próximas semanas. Ao contrário de alguns amigos, adoro a festa do Oscar. Acho fascinante. Me encanta ver os atores como personagens reais, homenageando-se, aplaudindo-se, emocionando-se. Celebrando a arte do cinema, enfim (sim, há espaço para a arte na maior "indústria" cinematográfica do mundo).

fevereiro 15, 2009

Capítulo 5

Não reconheceu em si a erudição de seu pai, a habilidade de sua mãe ou a grandeza moral de seus avós naquela terça-feira. Qual herança os mais diversos genes e as mais diversas mentalidades haviam deixado nela?

Às vezes questionava-se qual traço de sua personalidade e de seu cabelo havia herdado de seu trisavô. Aquilo simplesmente desaparecera?

De onde vinham aqueles constantes questionamentos? Não poderiam vir apenas daqueles 25 anos de vida.

Não acreditava em Deus.

Não acreditava no sobrenatural.

Mas acreditava na força das heranças, que era rica e repressora de uma forma imensamente intrincada.

O telefone tocou. Ana percebeu que aquele almoço durava mais do que o determinado. Absorta em pensamentos que a tornavam invisível, esquecera que o tempo da refeição era apenas de uma hora.

- Alô?
- Alô.
- Pois não?
- Cadê o documento da reunião?
- Na mesma gaveta.
- Ah! Obrigado! Onde você está?

"Boa pergunta", pensou. Mas respondeu:

- Pagando a conta do almoço.

Não gostava de comer sozinha, pois pensava demais. Pensamentos desconectados da realidade. Por mais que lesse uma revista enquanto comesse, hábito inteiramente copiado de seu pai, as elucubrações eram sempre sobre outros temas.

Aquele hábito que ela detestava em si, de segurar as próprias mãos, enquanto falava sobre algo sério e, geralmente, desagradável, era ela ou seu trisavô? Adoraria atribuí-lo ao avô e livrar-se da responsabilidade.

Talvez a teoria das heranças fossem apenas uma desculpa para não enfrentar suas próprias dores e dúvidas.

Naquele momento, não reconhecia em si a erudição de seu pai, a habilidade de sua mãe ou a grandeza moral de seus avós. Reconhecia, porém, as neuroses. Reconhecia as culpas. Reconhecia o medo de contrariá-los na essência e não na superfície, como sempre havia feito.

Aliás, todas as formas superficiais de contrariá-los foram burras. Perdeu coisas boas, pelo simples ato adolescente de contrariar. Mas nunca atingiu o essencial, que sempre seguiu sem verdadeiros questionamentos.

fevereiro 14, 2009

Precisamos da arte para que a verdade não nos destrua.
Nietzsche

fevereiro 03, 2009

Um filme genial

Não é arrogância, mas prefiro não mencionar o nome do filme em português. Ele simplesmente entrega mais do que devia. Chama-se Revolutionary Road. Um filme genial.

Começando pelo meio, a película vale por um dos melhores personagens dos últimos tempos, o insano John Givings, um gênio-louco que conta todas as verdades do filme: se você não estava realmente entendendo, ele vai te explicar.

Num foco bem diferente de Beleza Americana, o diretor Sam Mendes volta a abordar o tema da hipocrisia, da vida medíocre, da coragem de tomar a decisão correta.

Em Beleza Americana o herói era um homem mediano que decide romper o "caminho esperado" para, por exemplo, ter emprego de menor status e viver com tempo.

Em Revolutionary Road, temos uma heroína descontente, procurando sentido na vida e intensidade.

O personagem de Leonardo di Caprio é um banana, para ser bem direta. O filme tenta amenizar o lado dele, mas, venhamos e convenhamos, é um banana. Ou como diria Michael J. Fox em "De volta para o futuro", é um "chicken".

Passado este parágrafo-comentário-revolta, o que tenho a dizer sobre o filme é: vá ver! É um filme daqueles que faz refletir sobre um monte de coisas: desde abstratos, como sentido da vida, imagem diante da sociedade, complexo de Édipo, seu papel no mundo, até concretos, como aborto, paternidade precoce, traição, sexo.

Imperdível. Um dos melhores de uma temporada excelente.

janeiro 29, 2009

Manhã de segunda

O meu desejo
é verde,

Paisagem
que rodeia
os pensamentos e que

observo




à distância.